A repercussão sobre as piadas de “mau gosto” de Rafinha Bastos, apresentador dos programas “CQC” e “A Liga”, ambos da Band, é um fato oportuno para reflexão crítica sobre o poder das marcas e a liberdade de imprensa neste país controverso de valores, o que é muito natural em uma sociedade democrática. Mas, você acredita mesmo em liberdade de imprensa? E o quê o poder de uma marca tem a ver com ela?
A liberdade de imprensa é um dos princípios básicos do liberalismo para o estado democrático de direito. Ela assegura a liberdade de expressão dos cidadãos. O Sociólogo Edward Alsworth Ross (1866 – 1951), autor da obra Social Control, quando já questionava a liberdade de imprensa, apontava o perigo da submissão dos jornais aos interesses econômicos.
O engraçado é que a liberdade de imprensa apesar de ser uma bandeira de todos os jornalistas no Brasil, a maioria deles é contra o liberalismo. Vá entender (essa expressão ordena a busca de conhecimento). Esta preferência política da maioria dos jornalistas brasileiros não é o tema deste post, no entanto ela sugere a questão: não seria pelo fato do liberalismo permitir também a não jornalistas, como blogueiros instantâneos por exemplo, publicarem fatos e notícias sem o filtro de um editor ou jornal? Filtro de editor e de jornal é assegurar a liberdade de imprensa? A popular frase dita na revolução francesa de que sua liberdade acaba quando começa a do outro, neste caso sofre inversão de valores, ou só é conveniente nos olhos dos outros, assim como pimenta.
Rafinha Bastos ganhou notoriedade pela autenticidade do seu humor escrachado na bancada do CQC e até admiração pela iniciativa das reportagens de A Liga. No “CQC” seu diferencial talvez fosse mesmo as frases que julgássemos quem sabe nunca serem ditas na televisão brasileira com total liberdade, como se estivesse na mesa de um bar tripudiando de assuntos, “notícias” e personalidades que não devessem ser levados tão a sério pela imprensa. Em A Liga, acredito ter sido a temática jornalística ousada e corajosa das reportagens. O fato é que o cara caiu no gosto da audiência.
Seguido por mais de duas milhões de pessoas no Twitter, Rafinha foi considerado a personalidade mais influente do mundo no microblog. O jornalista Larry Rother do jornal norte-americano The New York Times, publicou um texto na seção “Arts and Leisure” (Artes e Lazer), dizendo que o apresentador do CQC brasileiro era irreverente, destemido e durão. Um reconhecimento para poucos, causando inveja aos seus colegas da bancada.
O irreverente apresentador havia então criado sua marca, e o número de fãs atestavam o poder dela sob os valores das características do seu produto. A principal delas: a liberdade de expressão, mesmo que muitas vezes sem algum compromisso moral, até porque a moral é amplamente questionável em nosso país. A audiência destes programas da Band, quem sabe, justifique esta questão moral e o interesse dos brasileiros por ela.
Neste contexto Rafinha brincou com a Wanessa Camargo, hoje grávida e esposa do sócio de Ronaldo Fenômeno, um dos patrocinadores do programa na Band. Wanessa e o seu esposo processaram Rafinha e a Band o afastou de toda a programação em que participava na emissora, inclusive suspendendo a exibição de matérias já gravadas com ele.
http://www.youtube.com/watch?v=_iRScEQU9p0
Sabe-se pelos bastidores, que Ronaldo exigiu uma postura da Band frente ao apresentador. Seu companheiro de bancada, amigo e parceiro do Ronaldo em comerciais da Claro, Marco Luque, condenou Rafinha publicamente em seu twitter. Agora, era o poder da marca Ronaldo fenômeno que entrava em cena. Ao meu ver, a maior causadora de tamanha repercussão sobre algo tão irrelevante. Junto com ele a opressão a liberdade de imprensa, quando trata-se de uma emissora que tem seus valores atuais galgados no jornalismo. Tá, aí você vai dizer que o Rafinha não fazia jornalismo. E o que é jornalismo então se não a liberdade de imprensa que assegure a liberdade de expressão? Que liberdade é esta apoiada em filtros de âncoras, editores e diretores vinculados a patrocinadores, empresas e marcas?
O fato então transformou-se no assunto da semana e a sua repercussão não só na internet como nos veículos de comunicação me chamou muito a atenção. E o que mais me surpreendeu foi a postura da Band. Se ainda fosse a Rede Globo, reconhecida por oprimir seus funcionários e coibir a liberdade de manifestação em seus próprios corredores, mas não, era a Band, a frente da excelente BandNews, do merecido e premiado Boechat e destes inovadores programas de humor. Mais chocado ainda fiquei com artigos de jornalistas publicados na Época e no Estado de São Paulo questionando os limites do humor. Claro que no país da piada pronta isso é possível. Me lembra um texto que li sobre os limites da imprensa. Humor e imprensa convivem juntos no Brasil desde a época do Pasquim. O Rafinha nem deu bola para isso. Postou foto no seu twitter procurando emprego e brincando com a situação.

O caso do Rafinha é tão relevante quanto o do jogador João Vitor, do Palmeiras, agredido por torcedores da mancha verde, torcida organizada do clube. O presidente do Palmeiras assim como a diretoria da Band lavaram as mãos. A diferença é que no caso do Palmeiras trata-se de um jogador de futebol com baixa audiência frente ao seu público da “emissora” e no da Band de um jornalista comediante declarado e escrachado, abusando dos dribles para alegrar a sua imensa torcida.
Na minha avaliação este episódio nos deixa claro que a liberdade de imprensa não existe e que a imprensa brasileira não está preocupada com ela. A enxurrada de falso moralismo da imprensa sobre este fato nos faz questionar sobre sua isenção e correção. Até que ponto ela é isenta? Quando convém ser isenta? Ou quando convém repercutir um fato? A quem interessa? É de interesse público? Quando Irão repercutir o humor sem graça do Renato Aragão, que faz piada sobre gordos, feios, pretos, anões, mulheres gostosas e ensinam as crianças a sacanearem umas com as outras para dar risada. É muita hipocrisia.
Esta semana recebi um e-mail da Coletiva.Net para responder uma pesquisa sobre a imprensa. As perguntas objetivas e um tanto quanto diretivas a um tipo de resultado com fins comerciais, buscam a classificação de quem o interrogado julga mais isento, confiante, ágil, correto e comprometido com a verdade. O resultado desta pesquisa não vai trazer a verdade. Vai simplesmente ranquear os veículos conforme o poder de suas marcas.
A imprensa é um bem público gerido pela iniciativa privada. Seu bem maior é a informação isenta e o conteúdo. Quando um produto achocolatado de uma grande marca queima a boca de crianças e causa risco a saúde pública, ela presta o serviço de informar a sociedade e investigar os fatos do problema, mas quando ela repercute com quase a mesma intensidade ou às vezes maior, a ofensa de uma piada de um humorista a uma celebridade, ou a um patrocinador ela está nos prestando um desserviço.
BRASIL! O PAÍS QUE LEVA POLÍTICOS NA BRINCADEIRA E COMEDIANTES A SÉRIO.
Ary Filgueiras
Jornalista/MBA em Marketing
@aryfilgueiras
aryfilgueiras.wordpress.com
Diretor da Business Press – Inteligência em Comunicação e Marketing
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