Em alguns mercados é interessante ver o quão longe da realidade os executivos que administram uma marca estão. No mercado de moda isso se acentua enormemente. É comum em uma reunião de diagnóstico eu questionar sobre a concorrência. Os executivos costumam falar de algumas marcas, talvez 10 no máximo. Após pergunto sobre o tipo de canal desejado e o perfil de consumidor, target da marca. Sobre canal alguns definem melhor, mas quando vou questionar como efetivamente eles garantem esta distribuição, poucos tem o rigor de fazer isso acontecer. Que na verdade significa que não possuem nenhuma definição digna de ser considerada como válida. Sobre o target as definições são muito sofríveis. Ou é tão genérico a ponto de toda a população brasileira que respira entrar no segmento ou é bem definida, mas quando se observa na realidade, na ponta do consumo, se nota pelo menos umas duas gerações de diferença. Uma coisa é saber o perfil do publico e outra é ter uma imagem aspiracional para comunicar a marca. Quem confunde isso deve voltar aos bancos da alfabetização de marketing com humildade.

Na pesquisa Azimute 720 (www.azimute720.com.br), para ilustrar o exemplo de concorrência, notamos que no mercado de moda ela se define pelo canal utilizado para distribuição. As consumidoras da classe A (pegando apenas este dado de renda para simplificar aqui o raciocínio), por exemplo, quando questionadas sobre marcas que possuem e compram, costuma aparecer mais de uma centena de marcas, muitas com aspectos regionais, pouquíssimas com participação nacional. Nesta mistura, marcas com uma variação de preço de mais de 300%. Por mais que você desejar concorrer com a marca X, Y ou Z (definição aspiracional) o que acontece na prática é um distanciamento grande disso (pela falta de gestão científica). Na cabeça do executivo ele não compete com esta centena de marcas, mas se a consumidora compra, pois encontra no mesmo PDV, ele compete, querendo ou não. Você pode até definir as marcas que você quer concorrer, mas tem que lembrar que antes da consumidora existe alguém que deve ser muito bem convencido deste posicionamento, que é o comprador de loja. Como o jogo se define no PDV, as marcas que ele colocar próximas as nossas, competirão conosco. As marcas que o vendedor trouxer do estoque para a experimentação, concorrerão conosco. Salvo exceções que dá para contar nos dedos de uma mão, isso serve para todas as demais marcas de calçado brasileiro e, arriscando um pouco, de vestuário também.
Então o que fazer? Na minha opinião, deve-se definir as coisas nesta ordem (um pequeno método científico de posicionamento e gestão de marcas):
– Definir uma hipótese inicial para o tipo de canal que se deseja competir em nível nacional
– Entender o conceito deste canal em todas as regiões brasileiras, considerando capital e interior e habitantes por município (grandes capitais X pequenos municípios. Até onde a marca vai?) = validação da hipótese inicial, com criação de um lookbook de canal de distribuição
– Entender as marcas que hoje estão sendo vendidas neste canal (marcas X estilo X preços) e validar o plano de distribuição por cidade. Cada ponto de cada cidade deveria ser validado anteriormente através de fotografias e check lists. Se você pensar que é muito trabalho reinicie a leitura do artigo ou voe para o primeiro estágio de alfabetização mercadológica. Você tem três opções: (1) ter uma marca que simplesmente venda e contar com a sorte = esqueça este artigo, (2) Ter uma marca com um posicionamento hipotético mas sem nenhum controle efetivo de sua implementação = esqueça este artigo e (3) Ter uma marca posicionada e que venda por cuidar deste posicionamento, estando onde a consumidora que nós mais desejamos possivelmente mais estará.
– Validar o plano de distribuição com toda a equipe comercial. Isso demora, dá trabalho, mas depois de uma vez feito você poderá apenas manter o programa, fazendo:
A – Exigências para abertura de PDV na cidade, como as fotos, check lists, estudo de viabilidade e potencial (por que abrir mais um PDV na cidade?). Quanto mais difícil é para a loja ter a marca, mais ela irá cuidar do posicionamento, pois saberá que isso significa cuidar do resultado que ela mesmo terá. Sabe que isso será feito em outras lojas e que a marca está se responsabilizando por parte do resultado. Diferentemente de um plano de distribuição sem controle, onde leva a guerra de preços e conflitos de canal.
B – Manter um relacionamento fábrica (ou “detentor da marca”) e comprador, muitas vezes conseguindo acessar os consumidores finais. Isso é muito importante, buscando aumentar a sua qualificação como canal.
C – Ter uma maior proximidade para tratar este grupo de clientes como se fosse uma rede de franquias, tentando fazer ações dirigidas regionalmente, que levem o resultado e a satisfação para a ponta da distribuição. Assim fica tudo garantido para trás.
– Cuidar e controlar este maior ativo, depois de sua marca, que é a rede formada pelos canais de distribuição. Se abrir um novo cliente, deve passar pelo mesmo crivo. Se for trocar um cliente por outro, tem que justificar bem. Se algum cliente da rede estiver com problemas, temos que ajuda-lo a se recuperar. E assim fazendo um genuíno trabalho de marca.
Tem um industrial do segmento de calçados masculinos que me ensinou que para chegar nos fiéis temos que passar pela igreja, fazendo uma analogia que para chegar nos consumidores temos que passar pelas lojas, onde lá existe um padre (um comprador e um grupo de vendedores) que irá pregar a mensagem que chegar na cartilha para ele. Desta forma, não deixe de escolher bem as suas igrejas, treinar bem estes padres, e cuidar para que sempre existam fiéis indo a esta igreja. Até mesmo a fé precisa de dinheiro para servir, imagine uma loja! Um trabalho mais científico, mais preocupado com a marca e mais centrado no resultado mútuo é necessário. Talvez o simples seja mais difícil de fazer, mas é indispensável para a gestão. Talvez o mais fácil continue sendo criar PowerPoints com definições bonitas de posicionamento de marca, apresentar uma vez por semestre em uma convenção de vendas e fechar os olhos achando que isso é gestão de marca.
Em resumo, hoje quem define a concorrência, em mais de 90% do segmento de moda, é a negligência dos executivos com um método científico de fazer gestão. Com isso, quem interpreta sinais vagos que chegam por alguns meios, e define um posicionamento entendido são compradores, representantes, vendedores de loja e o próprio consumidor. E vale a reza, para que esta colcha de retalhos consiga manter uma marca por longo tempo. Na melhor e mais simplificada das hipóteses, hoje em dia, quem define a concorrência no segmento da moda é o canal de distribuição.
Espero melhores resultados a todos e se este texto provocou um pouco a lógica atual, atendeu uma parte dos seus objetivos.
Bons negócios, saúde e prosperidade

Gustavo Campos
Publisher do Pensador Mercadológico
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