Líderes são aqueles que fazem o que falam

Já se passaram 3 anos daquele julho de 2010 na África do Sul. Naquele dia, a seleção brasileira, com boa campanha, mas com sérias desconfianças, caía fora da Copa do Mundo diante de uma Holanda (sempre ela) veloz e arisca. Dos méritos maiores daquele grupo, destacava-se a união entre comandante e comandados. Dunga tinha os jogadores na mão por ser um líder que protegia aqueles em que confiava. Ao apito do juiz, o mesmo virou-se de costas e caminhou ligeiramente para o vestiário, abandonando seu grupo no gramado após a eliminação. Um ato totalmente contrário às virtudes que autoproclamava a todos.

De discursos estamos lotados. Sobretudo daqueles politicamente corretos, cheios de ensinamentos e lições, do que podemos e devemos fazer em momentos específicos. Líderes e gurus que têm palavras sábias e certas para nossos ouvidos. Talvez a classe mais prolixa nesta linha de falar a coisa certa, sejam os políticos. Sobretudo em eleições, encaixam frases que são a expressão do desejo das pessoas. Dizem ser contra a corrupção e pelo bom investimento do dinheiro público. Esse distanciamento entre o que dizem e o que fazem, foi em grande parte estopim para grandes manifestações que felizmente sacodem o Brasil nas últimas semanas.

 

Os verdadeiros líderes são os que fazem exatamente aquilo que dizem. Não vivem nos discursos vazios e nas ações opostas ou difusas daquilo que propõem. Estão presentes junto dos seus liderados. Um fato marcante da Primeira Guerra Mundial foram os “marechais de chateau”. Até então, todos grandes conflitos e batalhas envolviam comandantes lutando junto nos campos de batalha. Mas neste momento da história, os líderes das tropas em guerra se instalaram em grandes casas alugadas na Europa para comandar os movimentos, distantes centenas de quilômetros de onde as ações ocorriam. A Primeira Guerra foi arrastada, cruel e com muitos homens desistindo de lutar, talvez motivados pela falta de sentido e da ausência de líderes verdadeiros ao seu lado.

Alan Deutschman destaca em seu best-seller Walk the Walk uma série de fatos nos quais líderes e liderados estão em total dissintonia. Ou seja, não existe nenhum tipo de motivo para seguir ou lutar pelas palavras ensinadas. Arnold Schwarzenegger, governador da Califórnia, defendia políticas ambientalmente sustentáveis, mas estacionava em sua garagem particular uma frota dos insustentáveis Hummers. Al Gore conscientizou o mundo do colapso ambiental, porém montou uma mansão que sugava energia em uma proporção gigantesca comparável à média americana.

Pessoas não trabalham para empresas ou governos. Pessoas trabalham para pessoas. Ou seja, é preciso ver ações e práticas que devemos ter para chegar aos objetivos que gostaríamos de alcançar. Os CEOs das grandes montadoras e dos bancos norte-americanas continuaram vivendo no mundo de fantasia dos jatos privados e dos bônus milionários, mesmo quando suas companhias sucumbiram. Do mesmo modo, os mandatários públicos no Brasil continuam gastando como nunca em caprichos particulares, ao mesmo tempo em que alegam ser hora de apertar despesas, inclusive não terminando obras e mantendo serviços essenciais em nível deplorável. Depois não vale reclamar da insatisfação nem da descrença, tentando consertar com novos discursos requentados. A única coisa que pode realmente fazer sentido para as pessoas é mudar, não as palavras, mas as ações efetivas. Serve para técnicos de futebol, políticos, CEOs e para você mesmo.

 

 

Felipe Schmitt-Fleischer

http://br.linkedin.com/in/felipeschmittfleischer

http://www.sprbrand.com.br

@fsf11

 

Pensador Mercadológico

www.pensadormercadologico.com.br

Quer receber os textos por e-mail? Na página principal, nos informe seu e-mail e receba as ideias e provocações dos pensadores mercadológicos.

Indicação de links

www.facebook.com/pensadormercadologico

www.twitter.com/blogdopensador

Líderes são aqueles que fazem o que falam

Atirando bolas de futebol americano em latões de lixo

Como sabemos, a vida é uma competição com fim. Assim como, por exemplo, o ingresso em uma universidade pública. Vejamos uma turma da faculdade de administração. Vestibular de verão do distante 1993. Passados 20 anos da entrada no ensino superior, como se saíram os melhores colocados. Será que a vida premiou igualmente todos, assim como a classificação naquelas provas desgastantes?

A competição é exaustivamente incentivada em muitas empresas. Com sucesso ou nem tanto. A McKinsey, uma das 3 grandes consultorias de estratégia mundiais, aplicava esse princípio com bastante entusiasmo nas empresas em que prestava serviços. Dividia os funcionários em agrupamentos, conforme o desempenho. A fatia do alto da pirâmide recebia premiações agressivas, a de baixo a porta da rua. Um de seus mais rumorosos exemplos dessa metodologia foi uma empresa chamada Enron.

 

Voltando ao exemplo escolar. As correlações mostram um mundo diferente. Em uma escala de 0,1 (quase nenhuma correlação) a 0,7 (forte correlação), a relação entre QI e o sucesso profissional alcança meros 0,3 no máximo. Quando olhamos como pessoas se saíram na universidade avaliamos um esforço de cunho pessoal. A interação com os outros é geralmente punida, afinal em grande parte das avaliações isso se chama cola. No mundo real (e das empresas), o que mais as pessoas fazem é justamente o contrário. Interagir ao máximo com os colegas a fim de obter os resultados corporativos.

Essas distorções de avaliação acontecem a todo o momento. Aquele garoto que víamos destruir em embaixadinhas e controle de bola passou longe dos gramados profissionais. O jovem que tinha um enorme talento para representar estórias, nunca conseguiu atuar em uma peça de respeito. Em um histórico recrutamento de quarterbacks do futebol americano, uma das mais promissoras apostas era Tim Couch. Ele havia batido todos os recordes na Kentucky University. Nos treinos ele acertava lançamentos em 5 latões de lixo que ficavam do outro lado do campo. Fracassou totalmente no mundo profissional.

O sucesso em determinadas situações não indica que nas demais os resultados irão se repetir. Dependem do contexto e não apenas das habilidades pessoais, mas das interpessoais também. O primeiro colocado naquele vestibular de 1993 é diretor de um grande banco multinacional na sua operação para América Latina. O segundo atualmente está saindo de um longo tempo fora do mercado. O terceiro não frequentou a faculdade, pois desistiu antes de começar. E o quarto, se essa posição tiver alguma representação estatística, escreveu esse texto.

 

Felipe Schmitt-Fleischer

http://br.linkedin.com/in/felipeschmittfleischer

http://www.sprbrand.com.br

@fsf11

 

Pensador Mercadológico

www.pensadormercadologico.com.br

Quer receber os textos por e-mail? Na página principal, nos informe seu e-mail e receba as ideias e provocações dos pensadores mercadológicos.

Indicação de links

www.facebook.com/pensadormercadologico

www.twitter.com/blogdopensador

Atirando bolas de futebol americano em latões de lixo