Quando compramos produtos “made in china”, pensamos em questões como concorrência desleal, impostos, empregos e os impactos de uma eventual desindustrialização.
Porém existe outro aspecto que passa ao largo das discussões: o incremento do volume de carga transportada através dos oceanos e as suas consequências econômicas, sociais e ambientais.
A conveniência como bandeira.
Em termos de logística, a globalização só se tornou possível graças a duas invenções da indústria marítima: os contêineres e as bandeiras de conveniência.
Um contêiner, além de permitir o envio de carga não embalada, torna viável a transferência de fábricas para qualquer parte do planeta em busca de benefícios fiscais e mão de obra barata.
Já a bandeira de conveniência é um sistema que possibilita o registro de um navio em qualquer país estrangeiro, tanto para reduzir custos operacionais quanto para evitar leis e regulamentações internacionais, tornando seus proprietários legalmente anônimos. São considerados “substandard”, pois devido à falta de fiscalização as embarcações que utilizam este sistema estão abaixo dos padrões de manutenção, segurança e condições de trabalho das tripulações exigidos na Europa, Estados Unidos, Japão ou Canadá.
O preço que se paga pelo lucro a qualquer preço.
Além da óbvia facilidade de utilização destes navios para práticas ilegais (contrabando de armas e tráfico de pessoas por exemplo), eles se tornam verdadeiras bombas flutuantes devido à ausência de manutenção. Por isso não é por acaso que o número de navios sbstandard envolvidos em acidentes graves, com perda de vidas e grandes derramamentos de óleo têm aumentado substancialmente.
O que está acontecendo nos oceanos é o aumento considerável do fluxo de navios cargueiros com bandeiras de conveniência (já são mais de 50% da frota), muitos operando em condições precárias por conta de legislações permissivas. E este é mais um reflexo da escalada do consumismo das sociedades ocidentalizadas, da transferência da manufatura dos produtos para países distantes e da crença neoliberal de que o “mercado se auto-regula”.
A última Bienal de São Paulo contou com a exposição “Ship of Fools” do fotógrafo norte-americano Allan Sekula. Ele reformulou um navio de carga acidentado, o Global Mariner, e viajou pelo mundo entre 1998 e 2000 denunciando os problemas da indústria marítima e suas consequências. Sekula contesta o mito de que o fluxo de bens e capital que constiui o comércio internacional não produz sofrimento.
Assim como já existem pressões para a utilização de madeira certificada, erradicação de trabalho infantil e produção de alimentos orgânicos, é necessário que haja um controle sobre a forma como os produtos que consumimos são transportados.
Quando falamos de meio-ambiente estamos todos no mesmo barco, que infelizmente está sendo guiado apenas pela bússula financeira. Uma verdadeira nau dos insensatos.
O navio petroleiro Prestige se partiu ao meio em 2002, ocasionando uma das maiores tragédias ambientais da Europa. As investigaçőes judiciais não chegaram a um “responsável direto” pelo acidente.
Leandro Morais Corrêa
Jornalista/Pós-Graduado em Marketing
leandromoraiscorrea.wordpress.com
Diretor da Business Press Inteligência em Comunicação e Marketing
http://www.businesspress.com.br
Quer receber os textos por e-mail? Na página principal, nos informe seu e-mail e receba as ideias e provocações dos pensadores mercadológicos.
Gostou do que leu? Espalhe as boas ideias, conhecimento se compartilha!
http://www.pensadormercadologico.com
http://www.facebook.com/pensadormercadologico
http://www.twitter.com/blogdopensador
