Se vacas voassem, choveria leite

O grande sonho de consumo de profissionais ambiciosos e de negócios revolucionários é ser assim reconhecidos. Como diferentes. Destacados na paisagem de uma série de iguais. Escapar das armadilhas do rebanho. Porque quando tudo é igual, tanto faz o que você escolhe. Não faz diferença alguma. Geralmente quem parte para a escolha, elege o mais barato. A morte das diferenças acaba com a chance de captura de valor.

A competição, a busca por um lugar ideal no mercado, acabando empurrando todos à frente. Essa corrida tem alguns drives que variam conforme o segmento. Mais, melhor, veloz, leve, versátil, etc. As marcas seguindo as lógicas destes direcionadores acabam correndo todas para o mesmo lugar. Chegam em posições parecidas, mas cedo ou mais tarde. E acabam todas muito parecidas de novo. Jogando o mesmo jogo, vão obter resultados parecidos.

Com as vacas todos no mesmo pasto de novo, não existem diferentes. Só acontece diferenciação quando você pára de somente olhar para o que seus concorrentes fazem. Quando você pára de copiar. A diferenciação é gerada na busca do desconhecido, do novo. Em entender o que falta no mercado, algo que talvez sequer tenha sido pensado pelo seu cliente. Quando você começar a pensar assim, o mais do mesmo vai começar a ficar mais distante.

Tal qual um jogo, a sua marca precisa improvisar e quebrar lógicas que parecem obrigatórias para cada movimento. Como o que aconteceu nas finais do campeonato de futebol americano, quando o adversário achar que você irá fazer algo normal, não faça. Nesse momento as vacas decolam e a chuva não é mais apenas água sem graça.

 

 

Felipe Schmitt-Fleischer

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Se vacas voassem, choveria leite

Mais um ano para sair dos lugares comuns de sempre

Existe uma pergunta feita de tempos em tempos sobre qual a última vez que você fez algo pela primeira vez. Invariavelmente as pessoas ficam desconcertadas, pois não é comum pensar nisso. E também porque elas caem na rotina sem perceber e acabam fazendo as mesmas coisas de sempre de forma repetitiva.

Alguém pode dizer que hoje nunca tivemos tanto acesso à diversidade. Podemos fazer uma escolha diferente a cada dia de nossas vidas e mesmo assim nunca repetiremos nada. Músicas, destinos, restaurantes, livros, tendências, estilos, cursos, ou qualquer uma dentre as alternativas de consumo que temos. A informação, tanto sua produção quanto difusão, o consumo 24 por 7 e o acesso a tudo isso nos deixam confortáveis para estar a um passo, clique ou confirmação de mais uma nova experiência.

Mas quantos de fato fazem isso? Uma das edições desse semestre da revista de bordo da Southwest Airlines tem um artigo provocador de Adam Hunter. Ele cita que a própria tecnologia de certa forma conspira para nos mantermos em ambientes déjà vu. Os algoritmos do Google e a popularidade, o feed do Facebook direcionado e as músicas trend do Spotify. Vivemos circulando por lugares que nos envolvem trazendo hits daqueles que estão próximos ou que se encaixam naquilo que podemos chamar de clube, tribo ou comunidade.

Talvez agora alguém irá lembrar de Chris Anderson e a Cauda Longa. Eu chamaria de Cauda Invisível. O Forgotify traz como modelo de negócio 4 milhões de músicas jamais tocadas no Spotify. Nem ao menos uma vez executadas e convida você a dar uma chance de mudar a história dessas músicas. Adam Hunter desafia novos negócios, o Invisigram, o Neverflix, o Wikineedy, o UnTweeted. Dar chance aos conteúdos perdidos e invisíveis. Além disso, a descoberta é excitante para o ser humano e o aspecto de saber algo que poucos (ou ninguém) sabem tem um valor bem apelativo.

Aproveite o exemplo. Em 2015 e siga por ruas que nunca passou. Saia das mesmas mesas dos restaurantes. Mude os destinos no Tripadvisor. Conheça lugares que nunca foi. Leia livros fora do best-sellers. O conhecimento surge do desafio do desconhecido. E é esse fascínio que acorda a inteligência. Mais de um milhão de alternativas se abrem no novo ano. Algumas portas são somente para você. Vai lá, tome 2015!

 

 

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Mais um ano para sair dos lugares comuns de sempre

Quando desistir é a menos errada das escolhas

Como decidir entre seguir em frente ou desistir? Parece daquelas escolhas complicadas, afinal a desistência pressupõe que gastamos energia para chegar em um parte do caminho para dali não seguir em frente. No entanto, o fato de tentar ir em frente pode ter custos e perdas altos demais para o bônus do destino. Assim, na verdade essa escolha precisa equilibrar tudo isso.

Seth Godin, em um dos seus diversos livros sobre negócios e marketing, compara a situação a um vão. Olhe para a travessia que tem que seguir, a distância do desfiladeiro, a descida, depois a subida do outro lado. Avalie se consegue fazer. Se consegue, siga. Se não. Procure outro lugar para atravessar. Nessa travessia dificilmente você estará sozinho. Então cabe avaliar quem está do seu lado. Ele tem a mesma disposição, energia e habilidades para seguir em frente? Quando você estiver no caminho, ele não vai te deixar na mão, sozinho para enfrentar situações em que deveria estar acompanhado?

Existem travessias difíceis e mais difíceis. As fáceis pode ter certeza que não garantem grandes recompensas e te levarão a lugares comuns onde outros aos milhares já chegaram. Você será mais um imitador comendo poeira de quem está na sua frente. Sendo a travessia no mínimo difícil, para valer a pena, lembre-se que quando estiver escalando os paredões do desfiladeiro, você precisa ter confiança nos ganchos que seu parceiro colocou e que os mesmos não irão arrebentar com o peso. Se você não pode contar em quem deveria estar ao seu lado, você tem problemas a resolver.

Toda reflexão sobre decidir foi motivada por uma escolha entre diversas alternativas não corretas que tive que fazer. Assim, como retratei neste blog de negócios a minha busca e concretização de um sonho de uma década, agora faço esse desenlace prematuro e indesejado. Depois de resgatar uma marca e aplicar diversos conceitos de branding, encerro minha participação a frente do Grão Brasil Café.  Três anos, mais de 20.000 clientes e o posto de bistrô número 1 da cidade pelo Tripadvisor. Reconhecimento e prestígio. E chegou a hora de seguir por outro caminho, não pela escolha certa, mas pela menos errada. Atravessar adiante poderia envolver desgastes e perdas indesejados. Reflita bem toda vez que tiver diante desse desfiladeiro. E decida se vale.

Confira outros 3 posts sobre essa trajetória:

1. Todo fim pode ser um novo começo 

2. Ideias hell yeah! em um restaurante

3. Coçando a própria coceira

 

 

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Quando desistir é a menos errada das escolhas

O que mudaria se você desaparecesse amanhã?

Muito já se falou de propósito. O sentido das coisas, dos negócios e das ações. Mais do que produtos e serviços, as marcas que desejam estabelecer uma posição forte precisam de propósito. Algo verdadeiro e profundo que vincule seus ideiais com aqueles que as pessoas acreditam e perseguem. Mas como encontra-lo?

Recentemente se tornou popular um diagrama que compara o processo de aprendizado ao desafio de sair de San Francisco e chegar em Londres. O método de aprendizado mais lento é o de “aprender pela leitura”. Seria como tentar chegar a capital inglesa caminhando,  mais de 1800 horas de viagem.  Na sequência vinha “aprender indo a escola” (usar uma bicicleta e chegar depois de 366 horas), “aprender de um mentor” (usar um carro e viajar 85 horas), “aprender fazendo” (tomar uma avião e depois de 11 horas aterrissar em Londres).

No entanto, o método mais rápido sugerido pelo Fundersand Founders foi “aprender através de assumir grandes riscos”.  Seria como pegar um foguete e chegar de San Francisco a Londres em apenas 33 minutos. Enquanto os 3 primeiros métodos tem chances pequenas ou medianas de alcançar o destino, este último tem altas probabilidades que você chegue lá. Aviso, com riscos. Algo como pular na água. Ou você afunda e morre ou nada e se salva. Se nadar, levará menos de 1 minuto para aprender.

Uma das perguntas mais perturbadoras postas a um empreendedor é o que aconteceria se sua marca desaparecesse no dia seguinte. Quem se importaria? F. Scott Fitzgerald falava: “Não escreva porque você quer dizer algo. Escreva porque você precisa dizer algo.” O que você precisa dizer? O que sua marca traz de novo, diferente e valioso para as pessoas?  Uma das boas analogias do branding é comparar a competição a um jogo de memória, semelhante aqueles baralhos de cartas nos quais temos que encontrar aonde estão os pares. Eu tenho um problema e preciso encontrar a carta (a marca) que pode resolve-lo.

E como vencer o jogo da memória? O que você entrega para as pessoas que ninguém mais está entregando? E de fato, você acredita que o que faz traz alguma diferença para você, sua vida e a vida das pessoas que fazem negócio com sua marca? Aqui temos o ponto de união entre o propósito e sua capacidade de aprender e dar certo em seu empreendimento. O método mais rápido e com maior chance de sucesso é o da tomada de riscos. Você é capaz de se desfazer de todas as economias para cair de cabeça em um novo negócio? Claro, você só fará isso se o novo negócio tiver um mínimo vínculo com seu propósito e com as coisas em que acredita. Como ensina o livro Rework da 37signals, o melhor jeito de dar certo é “coçando a própria coceira” e colocando você na sua marca. Então as chances de dar certo e não ser facilmente clonado são muito grandes. Disposto a entrar no foguete? Ou sua marca pode morrer amanhã sem ninguém saber?

 

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O que mudaria se você desaparecesse amanhã?

As respostas do futuro estão no passado

Mais um ano termina e muitos procuram pelo novo começo. Novas estradas, novos jeitos, novas metas. Olham adiante. Alguns procuram esquecer o passado. Parece muito mais lógico buscar as respostas na frente. Afinal é para lá que devemos ir. Por mais contraditório de direção que possa parecer, olhar para trás pode trazer muito mais respostas.

Quais são as suas motivações? Por que você resolveu se envolver em projetos e desistir de outros? Quais são as suas vocações? O que está lá no início de tudo? As perguntas podem ajudar a desencobrir o passado. Levantar velhas cortinas e desfazer da poeira que geralmente esconde razões, emoções que guiaram nossos sonhos e escolhas.

O propósito é um conceito antigo e resgatado para a pauta dos negócios. Serve a empresas, marcas e pessoas. Coloca um cerne de energia a tudo que se faz ou ajuda a responder o que não se deve fazer. Tem alto poder mobilizador, envolve as equipes em torno de motivos comuns. E ancora-se em princípios que estão nas raízes, ou seja, não serão alterados pela mais nova campanha ou slogan para defender-se da concorrência.

Há vários exemplos que mostram que propósitos fortes vencem as mais terríveis dificuldades. De Sir Shackleton desafiando os mares gelados da Antártida e trazendo todos seus homens vivos de volta a Londres (confira o incrível video abaixo). Da Southwest que tornou os céus norte-americanos livres para voar a todos que não tinham essa possibilidade. De Martin Luther King que mobilizou milhões em torno de seu sonho de uma sociedade sem preconceitos. De Adbusters que combatem a onipresença das marcas em um mundo dominado por elas. Do Rage Against the Machine dando sentido social à música. Do Axe que deu confiança e o poder da conquista aos adolescentes. De Edward Snowden que mostrou que a segurança nacional está abaixo da liberdade e privacidade.

Hora de voltar ao início. As personalidades e as grandes marcas citadas como exemplos de marketing bem executado, tem sua maior força vinda de dentro. Não fora. De fato, não tem a ver com propaganda, nem mesmo com marketing. Hora de mudar o sentido para trás. As descobertas serão surpreendentes. Como o verso de T.S. Eliot, a sensação será inédita. Seja bem vindo ao passado que vai te guiar para o futuro.

“We shall not cease from exploration


And the end of all our exploring


Will be to arrive where we started


And know the place for the first time.”

T.S. Eliot

 

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As respostas do futuro estão no passado

Hago lo que me da la gana

Um final de dia, acinzentado, na sinuosa estrada do Big Sur. As raras luzes entre a escuridão que se avoluma com o passar do tempo. O sinal de que mais um dia terminou para em breves horas começar com um novo alvorecer. Ao longe, após mais uma das tantas curvas que envolvem o litoral do Pacífico, um farol brilha solitário. Independente dos dias e das noites, das intempéries e do clima temperamental, ele estará lá sinalizando com sua luz. Talvez salve vidas, ou não sirva para ninguém.

Como os dias que terminam para novos começarem, os anos se vão. Mais um se encerra, com dias frios, outros nem tanto, promessas cumpridas e esquecidas, objetivos adiados e superados. A ponte 2012 representou novos negócios, ampliação de antigos, escolhas e desistências. Mas ciclos são invenções humanas, com datas estabelecidas em critérios nem sempre muito justos. Um simples número não mudará nada. Não são os eventos externos que farão transformações. Até porque as inúmeras interações continuarão ocorrendo sempre, ontem, hoje e amanhã.

 

Curioso que a única coisa que podemos mudar é o passado. Pessoas fazem isso a todo tempo, como lembrou Bob Dylan. Presente e futuro não estão no nosso alcance. Vamos fazer tudo para que o melhor aconteça, sim. Mas a mudança vai depender de todo resto conspirando. As curvas continuarão sinuosas, as noites escuras e o fog intenso. O que fará nos manter na estrada será o brilho, mesmo distante do farol.

Não serão milhões a mais ou a menos na conta. Dinheiro faz diferença por algum tempo. Pessoas abandonam salários fantásticos. Também não serão motivações momentâneas. Esse blog já teve mais de uma dezena de colaboradores. Não é ter o destino nas mãos. Profissionais desistem de negócios próprios para voltar à segurança do contracheque. O que guiará será algo maior. Mesmo que ao longe pareça pequeno. Te dará vontade de continuar. Pois tem relação direta com o que você acredita, com os propósitos mais intensos e vívidos. Que seja bem vinda essa nova curva chamada 2013. E tente manter a visão no seu farol. Sem piloto automático ou motoristas, mas com você mesmo no volante.

 

 

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Hago lo que me da la gana

Isso eu não sei, eu só trabalho aqui

Dos corredores do supermercado ao balcão da companhia aérea. Do atendente do telemarketing à moça do guichê de informações do banco. O cliente questiona algo e do outro lado ouve como resposta: “Não sei, só trabalho aqui.” Como se fosse normal e lógico. Trabalhar é uma coisa totalmente diferente e desligada do problema do cliente. É quando fica claro que o cliente é um mal necessário, atrapalhando a rotina natural dos padrões.

A terrível realidade das marcas e das empresas é totalmente diferente dos paradisíacos ambientes perfeitos do branding. Tanto que uma marca do segmento bancário destaca que os clientes especiais conseguem falar com os funcionários que resolvem realmente seus problemas. Fica óbvio então que os demais clientes irão sempre falar com aqueles que nada resolvem. Ou melhor, só trabalham.

Defendemos que as manchetes de marca, muito mais que slogans de comunicação, são bandeiras para orientar o time interno. Não existe bom branding em marca que acha que funcionário serve para cumprir função. Ele, que está na linha de frente com o cliente, deve fazer a entrega de tudo aquilo que a marca prometeu ser um dia. Os momentos da verdade são vividos assim. Não pelos gestores e estrategistas de branding, mas pela a equipe que você colocou para falar com as pessoas.

Nada mais frustrante do ponto de vista do cliente do que perceber o quanto foi desperdiçado em dinheiro para trazê-lo até as portas da marca e o quanto foi economizado no mesmo orçamento para garantir uma relação satisfatória. A mágica se quebra. E mais outro caminhão de dinheiro será gasto para fazer com que a mesma pessoa volte a ter confiança. O caso das operadoras de telefonia celular ilustra isso. Compromisso, verdade, preocupação são palavras que passaram a fazer parte de sua agenda de comunicação, depois de deixarem quem paga a conta sem o serviço.

Apenas trabalhar, no nível mais importante, significa garantir que o que a marca prometeu seja completamente entregue. As pessoas da equipe são guardiãs da marca e de seus valores. Todas as grandes crises surgem justamente da falha em desvincular as atividades dos propósitos. Sorrisos na televisão não salvam o mau-humor de seus funcionários. Jamais esqueça disto, mesmo quando estiver “só trabalhando”.

 

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Melhor morrer correndo riscos do que entediado

As pessoas sempre querem alcançar tudo que desejam. Ou pelo menos deveria ser assim. Convivemos com os dilemas das escolhas, entre arriscar para conseguir algo e ao mesmo tempo poder perder outro que possuímos. As grandes estórias dependem disso para serem grandes. Se a falha de um protagonista custar apenas sua vida voltar ao normal, essa estória não é interessante para ser contada. Seja no cinema, seja na vida.

Quando encontramos marcas pequenas ou médias, invariavelmente seus sonhos e metas miram o céu. Atingir milhões, bilhões de vendas. Somente nos Estados Unidos há 27 milhões de empresas registradas, mas apenas em torno de 2.000 delas alcançaram US$ 1 bilhão de vendas ao ano. Um percentual inexpressivo perto do universo de empreendedores. De cada 100 novos negócios no Brasil, apenas 5 sobrevivem ao teste dos 5 anos de atividade. E os outros? Será que todos fracassaram?

Seres humanos falham sobre pressão. Corredores caem, jogadores tremem e gestores cometem erros. Tentamos nos cercar do máximo de informação e detalhismo para conquistar a (falsa) sensação de tudo estar sob nosso controle. Desenhamos mapas e estratégias pensando que os mesmos são traduções perfeitas da realidade. Riscos não são facilmente controláveis. Muito menos em sistemas complexos, como o mundo dos negócios, com milhares de interações, algumas sequer conhecidas. Segundo o sociólogo de Yale, Charles Perrow, podemos chamar de “acidentes normais” aqueles que esperamos do funcionamento típico de uma operação tecnologicamente complexa. Como os negócios, as empresas e as marcas que conhecemos.

O psicólogo canadense Gerald Wilde registrou que em certas circunstâncias, mudanças que parecem tornar mais segura uma organização, na verdade, não a torna. Porque nós tendemos a contrabalançar redução de riscos em uma área com o aumento em outra. Freios ABS nos fizeram acelerar mais, faixas de pedestres têm mais acidentes que esquinas que não as têm. Arriscamos-nos mais com a impressão de corrermos menos riscos. Aeronaves mais seguras não reduziram tanto as taxas de acidentes, pois queremos mais passagens baratas e voos pontuais, independente do clima e do estresse das tripulações.

Após riscos que resultaram em fracassos, como bons e preocupados seres humanos, tratamos de investigar as causas e achar os culpados. Um pouco de hipocrisia, já que nosso comportamento natural tende a eliminar segurança por novos riscos, como vimos acima. O certo é que isso faz parte da essência da vida, onde cada passo nosso está em rota de colisão com algo: bom, ruim ou indiferente. Chamamos de sorte, azar, destino ou qualquer outro termo. Certeza apenas é que, entre todas as mortes, a pior delas é a de tédio.  
 

 

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O camelo foi um cavalo construído por um comitê

Alguns adoram comitês. Eles dividem responsabilidades e em tese colocam todos no mesmo barco. Baixam o risco de alguém tentar remar para o lado contrário. Criam a paz para as decisões colegiadas. Unindo diversas mentes juntas, espera-se criar algo mais poderoso que poucos pensando sozinhos. Nem sempre o que brilha é brilhante. Uma verdade também para os comitês.

Para tomar decisões é preciso ousadia. Em muitos casos romper com status quo. Ir além do que já foi pensado ou aquilo que o senso comum imagina como adequado. O oposto do que a grande maioria dos comitês é. A média, mediana, medíocre. Das ideias que ficam pasteurizadas após várias lapidações políticas. O corte de tudo que possa desagradar algum membro do comitê.

Cavalos viram camelos e ideias inicialmente boas acabam em mais do mesmo. O universo das marcas está cheio de grandes e pequenos exemplos de comitês que aposentaram quem nem estreou. Pense em grandes produtos e marcas e investigue quantos foram criados pelo colegiado. Red Bull foi odiado por todos e teve como diagnóstico a grande lata de lixo das novidades. Alguém resolveu levar adiante. E não foi um comitê.

Já dissemos em algum lugar que as grandes marcas, as que usualmente citamos como admiradas, são produtos centrais de suas lideranças executivas. Não são resultados de comitês de marketing. Em todos os projetos de construção e posicionamento de marca que participamos um dos pontos mais importantes é trabalhar com um time muito enxuto de líderes. O menos é mais. Porque o mais é o caminho mais curto para tornar tudo difícil até o ponto que se desista.

Quando a execução se aproxima, geralmente tudo é empurrado para a média. Daquilo que já foi feito antes. Do que se alcança com as mãos. E ali não está aquilo que alimenta as grandes ideias. Acabam definhando no momento da verdade. Nesta altura o camelo pede água. E a equipe parte para uma nova rodada ao redor de mais uma das tantas mesas de comitê.

 

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O camelo foi um cavalo construído por um comitê

"Branding é uma esperança embrulhada em um desejo dentro de uma fantasia"

Houve um tempo que a dita cultura popular era segregada a um canto da mídia. Hoje está com seu show garantido na arena central, seja do rodeio do mês ou sobre o caminhão para o comício político. A consagração plena de lixos culturais. A popularidade serve como selo de (falsa) qualidade. Então a relevância é amplificada e o último sucesso é ecoado de maneira unidirecional. A elite que antes esnobava a música sertaneja ou o grupo de pagode, corre para comprar ingressos em áreas Vips, ouvindo a mesma porcaria entre uma taça e outra de champagne. Audiência grande e diversificada tende a convencer até os incrédulos que talvez, em algum sentido, pode haver algo interessante ali. Modelos de sucesso tendem a nos convencer que existe uma verdade. Mera ilusão de pensamento.

Durante 1.500 anos sobreviveu uma teoria que defendia que a Terra era o centro de tudo. Ela era considerada uma verdade absoluta por todos. E estava totalmente equivocada. Mas por que esse erro foi cometido? Olhando mais de perto vemos que 3 fatores principais foram responsáveis pela ilusão:

1. Funcionava a maior parte do tempo

2. Ninguém estava interessado em desmenti-la

3. Não havia alternativa viável para substituí-la

Se olharmos para as marcas e sua gestão parece que repetimos o mesmo erro. Jonathan Baskin defende que estamos presos na mesma armadilha. Vendemos como objetivo uma ideia, cujo resultado efetivo para a empresa e seus produtos parece ser difusa. Mas os 3 fatores acima estão presentes. Escapamos das respostas diretas, pois construímos valor ao longo prazo, bem como muitos empregos e toda uma engrenagem dependem que o circo continue funcionando, mesmo que os palhaços não façam mais as pessoas rirem. Grande parte da comunicação é dinheiro jogado fora. Gera uma lembrança de marca, mas será que impacta no comportamento de compra quando da próxima visita à gôndola?

As perguntas perigosas que poucos querem ouvir e muito menos responder. Quanto custa a presença de uma marca naquele stand cinematográfico? E aquela celebridade contratada para gerar recall? Você sabe o que aquela página dupla na Vogue vai representar? Impactos de marca precisam gerar negócios. Senão não há sentido em falarmos de alinhamento de estratégia de marca e negócios. Branding deve gerar comportamento e ação. Mais do que ficar vibrando nas ondas cerebrais, a marca deve impulsionar o cliente a seguir para a próxima etapa de compra, aproximando-o da conclusão do consumo. Como um jogo, não vale nada você ficar parado mesmo que seja em um lugar super interessante, se a meta está do outro lado do campo.

A verdade absoluta do branding sem sentido está caindo. Assim como caiu a tese que a Terra era centro do universo. Para um levou mais de um milênio. Para o outro bastará alguns bilhões de reais jogados fora sem sentido. Até que alguém mostre o absurdo na crença cega que tudo está certo. E os primeiros comecem a abrir os olhos. Tal qual a música de sucesso de hoje, teremos vergonha do que um dia fizemos com as marcas.

 

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