Filter bubbles: quando a internet gira ao redor do seu umbigo.

Recentemente uma agência de publicidade fez uma pesquisa sobre os hábitos dos gaúchos e constatou que o estilo musical preferido é o sertanejo com 30% das respostas. Várias pessoas reagiram com incredulidade, porque com base em convicções próprias retroalimentadas por seus pares, era impossível a música sertaneja gozar de tanta popularidade no Rio Grande do Sul. Trata-se de um exemplo prático do que pode acontecer quando interagimos somente com quem está de acordo com nossas opiniões: além de perdermos a chance de conviver com pensamentos divergentes, caímos na ilusão de que nossa forma de pensar é predominante.

E este é apenas um dos efeitos colaterais da “bolha de filtros” (filter bubbles), conceito criado pelo ativista de internet Eli Pariser para definir o sistema de algoritmos que, a partir do comportamento online, elabora o perfil de cada usuário e personaliza o fornecimento de conteúdos de acordo com este perfil. Com isso, as informações que recebemos tendem a ter um viés semelhante ao dos perfis que tradicionalmente frequentamos.

 

Em tempos tão dinâmicos não deixa de ser um anacronismo ter nosso perfil para coleta de novas informações formatado a partir do nosso comportamento no passado. E se há até pouco tempo a qualidade das informações que obtínhamos junto aos veículos de comunicação tradicionais dependia da competência e da ética de editores humanos que estavam sujeitos à crítica pública e de suas próprias consciências, na internet ela está atrelada a algoritmos frios que tendem manter o status quo intelectual de cada usuário sem questionamentos ou autocríticas.

E o agravante é que o usuário da internet não toma conhecimento das informações que ficaram de fora do cardápio que lhe é oferecido, limitando o que ele consegue ver do mundo. E Pariser vai mais longe, ao dizer que: “Um mundo construído a partir do que nos é familiar é um mundo onde não há nada para aprender, uma vez que se trata de autopropaganda invisível, doutrinando-nos com nossas próprias idéias.” Ele também alerta que algoritmos invisíveis editando a web podem limitar nossa exposição a novas informações e estreitar nossos pontos de vista, tornando as pessoas mais vulneráveis à propaganda e à manipulação.

Estamos correndo o risco de nos tornarmos uma sociedade que só ouve e vê o que nos agrada, criando uma fragmentação na qual o mundo que cada um de nós vê se parece cada vez mais com o nosso próprio mundo, no qual ficaremos isolados com o eco de nossa própria voz. Os filtros de busca na internet estão se tornando um mecanismo de reprodução das nossas próprias idéias, comprometendo uma das maiores qualidades da rede, que é o de se encontrar o que não está se procurando.

Além disso, os filtros personalizados nos mostram conteúdos similares aos que mais acessamos. E muitas vezes estes links são bobagens que clicamos por curiosidade ou diversão, mas que são levados ao topo pelos algoritmos, deixando os conteúdos mais densos e menos acessados para trás. Nas palavras de Pariser, em vez de termos uma dieta balanceada de informação, ficamos apenas com a gordura e o açúcar. 

Entra em cena a velha questão das recompensas imediatas e de longo prazo. A história enternecedora de um cachorrinho ou um vídeo engraçado receberão mais cliques do que uma matéria de economia ou política, indo as primeiras para o topo das prioridades de acordo com o ranking dos algoritmos.

Exagero? Mais uma teoria da conspiração?  Talvez, mas temos exemplos concretos do que acontece quando se dá as pessoas somente o que elas querem: haja visto a infantilização do cinema dominado pelos blockbusters e a deprimente programação da TV aberta.

Pariser nos alerta que não é fácil escapar desta armadilha, uma vez que o monitoramento vai desde os cliques que damos, até o tipo de computador que usamos e a posição geográfica que nos encontramos. Mas uma das possibilidades é diversificar ao máximo o foco dos nossos interesses na web, evitando acessar sempre os mesmos sites ou buscar sempre os mesmos assuntos.

Uma dica válida tanto em nível pessoal como profissional, pois o convívio com a diversidade é que proporciona o crescimento. E nunca é demais lembrar que além do seu umbigo podem se esconder informações tão surpreendentes quanto o gosto musical dos gaúchos.

Leandro Morais Corrêa

Jornalista/Pós-Graduado em Marketing

leandromoraiscorrea.wordpress.com

Diretor da Business Press Inteligência em Comunicação e Marketing

http://www.businesspress.com.br

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