Somos suscetíveis à mudança, seja ela de hábitos, gostos, comportamento, de pensamento, enfim, a evolução faz parte de nossa própria natureza e a transmissão de parte da informação que absorvemos, também.
Compartilhar. Esse verbo que já faz parte há tanto tempo da vida do homem, parece ganhar os holofotes como nunca. É a bola da vez. Seu entendimento está presente na essência de várias empresas de sucesso hoje, principalmente das que se originaram no ambiente de internet. Ambiente esse que dá uma dimensão totalmente diferente e ampliada ao sentido dessa palavra.
Os efeitos desse superdimensionamento nos afeta e influencia de inúmeras formas. O próprio “valor da informação” passa a ser revisto. Pagar por uma informação hoje, esteja ela em um jornal, revista ou outro meio, é algo como pagar pedágio para trafegar uma via a qual você teria acesso livre através da internet. Só faz sentido se apresentar diferenciais notáveis e relevantes.
Podemos afirmar também que nossos heróis, nossos “ídolos” de hoje já não são como os ídolos de 15 anos atrás. Não digo isso em razão do amadurecimento natural, ou de que estão piores ou melhores do que anos atrás. Digo isso em razão de que nossa posição em relação a eles está diferente. Hoje vivemos em ambientes, mesmo que virtuais, onde as distâncias estão menores. Interagimos e estamos mais próximos daqueles que aprendemos admirar através da mídia. Ser um ídolo desejado e respeitado hoje, seja no esporte, arte, ou outra categoria, requer mais do que nunca, ser primeiramente uma pessoa desejada e admirada. Ainda assim, nós mesmos estamos em um momento de celebrar nossa individualidade e nosso conhecimento, compartilhando com nossos amigos e seguidores. “You are a ltd. Edition”. Geramos e divulgamos nosso próprio conteúdo.
O próprio consumo se coloca em questão. Formas sustentáveis e colaborativas são recebidas de forma muito positiva. Tomemos como exemplo o case da marca de calçados TOMS, a qual propõe que a cada par vendido, um outro é doado para alguém necessitado.
Compartilhar aspirações, momentos, experiências que realmente tenham sentido para nossa vida, faz com que sejamos mais próximos e contribui para que pessoas e marcas fiquem eternamente ( e ter na mente ) em nossas lembranças, provocando hábitos e ideias de maior longevidade.
Muitas pessoas adoram dizer que tem raízes. E por esta razão inconsistente, expressa em metáfora, justificam sua inércia diante da quebras de rotina e ameaças a zona de conforto em que se encontram. Isto só por serem estimuladas a mudanças contrárias aos hábitos culturais de suas origens. O lado negativo deste comportamento é o freio que ele provoca na evolução humana. Se o bairrismo, tradicionalismo, nacionalismo, capitalismo, radicalismo, comunismo, petismo, direitismo, socialismo, liberalismo, egoísmo e tantos ismos mais estão incrustados em suas raízes, mova-se, quem tem raiz é planta.
Mover-se é a bola da vez. Aproveitei o tema e contextualizei para dar um pau nessa história de raízes, que prendem as pessoas a lugares fixos, idéias fixas, o que incluo de forma preponderante a casa, o lugar onde nasceu, a família, amigos, escola, trabalho, casamento, relações pessoais e profissionais. O mundo move-se, é fato e talvez por esta razão as pessoas sintam necessidades digamos assim fixas, enraizadas. Só que hoje ele move-se muito mais rápido, o que deu notoriedade atual a um conceito antigo, tema deste post e que influencia muito nestes hábitos enraizados que eu particularmente condeno. É a mobilidade, que pode ter certeza vai quebrar seus paradigmas.
A mobilidade é um dos fenômenos mais importantes da sociedade contemporânea e talvez tenha sido em todas as sociedades existentes. Uma de suas representatividades mais marcantes é o sentimento de liberdade.
Um ícone clássico para mim deste fenômeno, e também para tentar tirar um pouco da sua cabeça o entendimento do tema somente vinculado as atuais tecnologias, é o filme Easy Rider, de 1969, escrito por Peter Fonda, Dennis Hoper e Terry Southern. No enredo, dois motociclistas atravessando o sul dos Estados Unidos com suas motos em busca de liberdade.
Isso é mobilidade na essência, o que remete aos hábitos de contracultura, rompedores e ousados, que só trouxeram benefícios a humanidade somente estimulando-a a questionar-se, sair do lugar de onde está e da inércia. Por esta razão é inadmissível nos dias de hoje para quem deseja evoluir, resistir a conceitos e formulas conservadoras sem ao menos compará-las testando novas formas, novas idéias de fazer acontecer o mundo.
A terra prometida, o caminho das Indias, a descoberta da América, o avanço do império Persa, a corrida do ouro, a bicicleta, o primeiro automóvel, a telefonia móvel, os notebooks, tablets enfim, dá para entender um pouco do assunto, afinal, mobilidade trata-se de elemento fundamental da dinâmica demográfica e de interesse direto de pesquisadores. Ela estende-se a diversas atividades sociais e carrega uma série de fenômenos imprescindíveis para compreender as transformações do mundo contemporâneo.
O livro do geógrafo Tim Cresswell, On the move: mobility in the modern westrn world, editado pela Routledge, em 2006, realiza um dos mais completos estudos recentes sobre mobilidade. Com nove capítulos o autor explora de forma muito inventiva e criativa, alguns aspectos interessantes, desde os home offices, os direitos de mobilidade, as mobilidades imigrantes nos aeroportos, além de outras citações em uma tentativa de ampliar a percepção sobre o tema., como faço aqui também.
Pensarmos as formas mais diversas que envolvem a mobilidade e o quanto ela nos ajuda a quebrar barreiras físicas, culturais e conceituais é uma das maiores virtudes de Cresswell neste livro. Uma análise multidimensional, seja focada em movimentos específicos ou em um esforço maior para aprender o significado de grandes processos. Neste sentido, “On the move” é uma leitura obrigatória para quem quer estudar as populações e seus movimentos através da mobilidade, não como um mero número de fluxos casa-trabalho ou campo-cidade, mas sim um dos fenômenos sociais, volto a dizer, mais importantes e complexos do nosso tempo.
Vejam as campanhas da TIM e da Fiat abordando o tema e notem a percepção destas marcas sobre estas mudanças. Não estou avaliando aqui a eficiência das campanhas ou se as marcas são leais ao seu discurso e sim a sacada com relação a este conceito na mudança de comportamento da geração atual com a mobilidade e aproximando suas marcas deste conteúdo.
Para exemplificar o efeito nas formas de trabalho por exemplo, muitas empresas paulistas estão incentivando seus executivos a trabalharem em casa para não perderem o tempo de produtividade em deslocamento no trânsito. Em suas atividades a tecnologia proporciona a mobilidade que antes era oferecida pelo automóvel, mas que agora está preso no trânsito.
No jornalismo, minha profissão, por exemplo, os avanços tecnológicos dos dispositivos móveis agregam a sua forma de produção uma nova realidade, que oferece aos repórteres em campo novas condições técnicas e operacionais para o exercício da profissão de forma remota.
As notícias de hoje podem ser produzidas através de um dispositivo móvel, de qualquer lugar a qualquer hora, assim como demarcadas por GPS, fincadas em mapas no momento de sua construção, possibilitando gerar novas informações. São mudanças apontadas e caracterizadas pela digitalização de artefatos e processos, que desencadeiam novos comportamentos no trato com a informação jornalística ao incorporar estes elementos da comunicação móvel. Eles permitem através de um só aparelho, a captação de imagens e sons, produção de textos, diagramação, editoração, edição de imagens e vídeos, além de sua publicação, compartilhamento e demarcação. Tudo isso por uma mesma pessoa, e o mais intrigante, não necessariamente um jornalista. Isso é mobilidade.
John Pavlik (2001) no livro “Journalism and New Media” aborda a questão a partir de um experimento denominado de “estação de trabalho do jornalista móvel” em que o jornalista poderia, por exemplo, com uma câmera digital, um Palm Pilot, ferramentas de reconhecimento de voz e gravador digital e conexões disponíveis produzir uma reportagem contextualizada e a distância. Alguém já viu uma redação de um grande jornal ou telejornal? Quem já viu sabe o impacto que estas constatações de Pavlik implicam nestas mega estruturas.
O jornalismo, assim como outras profissões passa por uma reconfiguração dos seus processos produtivos que no mínimo nos provoca questionar sobre os processos antigos: estruturas fixas, horários fixos, números fixos, padrões e rotinas fixas. O que você está fazendo aí parado? Mova-se, afinal quem tem raiz é planta.