Hora de acordar e deixar de sonhar

Uma sala repleta de diretores de uma grande empresa de seu segmento. Todos da segunda e terceira geração da família fundadora, já no posto de responsáveis pelo presente e futuro do negócio. Na tela aparecem imagens e a atividade pede que digam as primeiras impressões que eles enxergam. Uma apresenta homens de terno sorrindo. A resposta unânime dos presentes: “estão de férias!”. Uma certa surpresa, afinal estão vestidos como executivos. Perguntamos, mas por que “férias”? E a explicação: “ora, estão felizes!”

Quantas empresas que você conhece tem ambientes tristes? Quantos profissionais vivem em eternas segundas feiras chuvosas? Contam as horas como dias no calendário de um presidiário. Estão ali por estarem (ou precisarem, nas suas palavras). Ou porque é da família, ou porque nada melhor apareceu, ou porque simplesmente precisam daquele dinheiro.

A mudança está sempre na curva seguinte. Pretendem começar aquilo que deveriam ter começado. Ou fazer aquilo que queriam ter feito muito tempo atrás. No entanto, invariavelmente isso não passa de um discurso. Justificativa para os outros e uma forma de auto engano. As consequências são a própria infelicidade e uma empresa na qual os propósitos morrem em gavetas vazias e mesas empoeiradas.

Como já abordado, a ausência de propósitos coloca empresas e marcas nas prateleiras do mais do mesmo. Sobreviventes no mercado, às vezes invisíveis, em outras guerreando pelo preço ou pela brecha deixada na distribuição. Mas sempre correndo o risco de serem descartadas na próxima compra. Em alguns momentos o dinheiro é usado como justificativa e propósito. Como se ele não fosse mera consequência (e não motivo para as ações).

Tal qual o comercial da Ikea abaixo, há pessoas, empresas e suas marcas que precisam urgentemente “mudar a cadeira de lugar”. Sair da posição de velhos encostados no banco de praça jogando milho. Para alguns, não apenas a cadeira serve, precisam mudar todo mobiliário para enxergarem um outro enfoque do mundo e do mercado. Ou esperarem simplesmente e a morte chegar.

 

Veja também:

O palácio das variedades e o império da falta de sentido

Achar que só design vai salvar sua marca é como pensar que o pinguim voa porque tem asas

 

Felipe Schmitt-Fleischer

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Hora de acordar e deixar de sonhar

Tenho 500 mil fãs. E agora?

Nos dias atuais, onde o digital está na moda, está na mídia e está na nossa vida, empresas vem buscando a cada dia aumentar seu número de fãs nas redes sociais. Por mais que muitos pensem o contrário, não é muito difícil chegar a um grande número de fãs. Basta ter (muito) dinheiro para investir e contratar um ótimo profissional de mídia digital, que saberá investir esta verba apropriadamente objetivando o sucesso.

Existe uma história, de uma grande empresa que chegou a marca de 500 mil fãs de forma muito rápida. Ela começou no mês de outubro de 2012, fazendo um grande investimento em mídia. Logo chegou aos 100 mil fãs. E seguiu assim, progressivamente conquistando novos fãs, 200, 300, 400, até alcançar a marca de 500 MIL FÃS. O presidente da empresa comemorou! Parabenizou todos da equipe. Lembrou inclusive, que o trajeto para este número ocorreu de forma mais fácil do que ele pensava. A equipe toda estava em êxtase, pois não era comum receber um elogio do chefe. Porém, em meio a toda comemoração, surgiu uma fala baixa, praticamente um susurro, mas que soou como um estrondo aos ouvidos de todos. A pergunta era simples, no entanto coube ao estagiário fazê-la:

– Chegamos aos 500 mil fãs! E AGORA?

Silêncio total. Não se tinha a resposta. E assim, sem saber o que fazer e quase na mesma velocidade que conquistou, a empresa perdeu seus 500 mil fãs.

A história acima, não passa de ficção. Porém encaixa-se como um alerta a muitas empresas que investem em redes sociais, sem traçar um objetivo, sem saber com quem estão se comunicando ou no que os seus fãs estão interessados. Trabalhar o marketing em redes sociais, parte do mesmo principio que o marketing offline: você deve saber com quem está falando e o que este indivíduo está procurando. Você precisa entender de pessoas. Rede social é relacionamento, é entender o real motivo dos seus fãs estarem seguindo sua marca. Pensar que postagem sobre seu produto revolucionário, ou sobre seu faturamento, é satisfatório frente ao seu público alvo pode ser um atraso, pois provavelmente tal conteúdo não saciará a necessidade de seus fãs. Você precisa apresentar mais para estes fãs, provocar surpresa e encantamento.

Ok, mas como fazer isso? Existe uma solução mágica? Um caminho mais fácil?

Não. Nada disso existe. Sua empresa deve saber como engajar, motivar e fazer com que seus fãs sejam embaixadores de sua marca. Caso sua empresa não esteja capacitada, é bom voltar lá para o começo e repensar todos os esforços que estão sendo realizados.

 

Quem sabe o vídeo abaixo da empresa Nextel não inspire você e sua empresa…

 

Engajamento. Esta é a palavra.

 

Não está inspirado ainda? Assista mais este vídeo da IKEA:

 

Até o próximo

 

 

 

 

 

 

Carlos Eduardo Dieter

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Tenho 500 mil fãs. E agora?

O diferente mundo do branding – parte 2

Uma música ecoa pelos estádios de futebol do mundo. Do leste europeu ao sul da América, torcidas fanáticas cantam como uma única voz. O som é cru, seco e visceral. Os autores, uma dupla que faz um rock rude, no entanto moderno. Em uma cena musical onde mais é melhor invariavelmente, eles optam pelo caminho inverso. Apenas uma bateria e uma guitarra. Simplicidade e autenticidade fizeram o White Stripes e seu hino Seven Nation Army (veja o video abaixo) despontar em uma época de músicas semelhantes em excesso.

Como na música, nunca tivemos tantas opções de compra. Neste mar de escolhas procuramos encontrar pontos de diferenciação entre as marcas ofertadas. Na estratégia delas, um item parece estar onipresente: aumentar. Mais qualidade, mais tecnologia, mais capacidade, mais sofisticação, mais tamanhos, mais sabores, mais tudo. O superlativo é o mantra, do desenvolvimento de produtos à estratégia de comunicação.

Quando todos elevam as ofertas, ficam de novo, todos no mesmo patamar. Olhamos surpresos e confusos para as gôndolas do supermercado, para a vitrine da loja de eletrônicos, para os cardápios de restaurante. Mesmo tudo sendo maior, melhor, mais rápido; nos sentimos frustrados por achar a escolha irrelevante para nossa vida. Afinal tudo é semelhante e o impacto final será mínimo, seja a marca A ou Z, a nossa escolhida.

Então surgem os diminuidores. Aquelas marcas que olham para a manada e resolvem tomar a direção diametralmente oposta. Em um universo onde o sim é a regra, elas dizem não. Tem a coragem e a ousadia de abrir mão daquilo que outros consideram indispensável para competir. Abrem mão de baixos e teclados. E mesmo assim (e por isso) fazem música única.

O padrão dos buscadores de internet eram os portais. Mais abas, seções, informações e funcionalidades concentradas. Em um tempo em que o Yahoo ditava a regra do aumentar, o Google surgiu no sentido oposto, simples, direto e limpo. Assim, a Ikea mudou o segmento dos móveis solicitando que checasse o tamanho do porta-malas de seu carro, pois não fazia a entrega. E quando todos videogames investiam em mais recursos gráficos, o Wii apostou em simplicidade e uma nova interface.

Em um tempo onde nosso cérebro quase entra em curto circuito com o discurso do “mais das marcas”, soa como refresco a opção contrária. Escolhemos estas por motivos bem claros. Não fazem tudo, porque não buscamos tudo. E sabemos que é praticamente impossível ser impecável em todos os atributos. Então o que vale é ser excepcional naquilo que damos maior importância. Vale observar: com o que o seu cliente está realmente preocupado? E como você pode fazê-lo “cantar sua música” por onde ele estiver.

 

Confira também os outros posts desta série:

O diferente mundo do branding

O diferente mundo do branding – parte 3

O diferente mundo do branding – parte 4

 

 

Felipe Schmitt-Fleischer

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O diferente mundo do branding – parte 2

O chato mundo dos discursos que parecem piadas sem graça

O humorista Steve Martin em uma auto-análise sincera, pouco comum para estrelas de Hollywood, afirmou que em dias ruins olha para sua carreira e vê que não fez grandes filmes. Apenas uma seleção de boas cenas que juntas e mixadas renderiam talvez no máximo um bom videoclipe. Algumas marcas parecem com essa história. Bons momentos, mas que em perspectiva estão perdidos em locais diferentes do passado. Vivem eternos dias ruins, pois foram engraçadas, tal qual a visão pessimista de Martin, apenas em raros momentos.

 

Quando alguns anos atrás começamos a visualizar um novo produto que hoje na SPR Brand chamamos de Trueset, percebíamos que havia empresas que pensavam que suas marcas eram pedaços descolados do resto do negócio. Acreditavam que independente de como estavam construídos os modelos de negócio e os diferenciais que seus produtos e serviços proporcionavam, as marcas tinha liberdade própria para fazerem o que quisessem. Por mais mentiroso e temporário que fossem. Colocavam o batom no porco. Ficava mais bonitinho (ou ridículo), mas continuava essencialmente um porco.

Rob White disse certa vez que quando perguntamos aos executivos que marcas eles admiram, aparecem invariavelmente Apple, Starbucks, Google. Ampliaria para Zara, Ikea, Nike, Arezzo (para citar um exemplo local). O interessante e comum a elas é que suas marcas são mais a incorporação de sua liderança executiva do que produto do departamento de marketing. As coisas começam do lado de dentro. Não no de fora. Não tem a ver com propaganda, nem mesmo com marketing. Não são mulheres nuas, corredores velozes, lojas iluminadas, comerciais espertinhos. John Gerzema e Ed Lebar definem: “…é a construção de uma empresa que faz o que afirma fazer.” Simples e verdadeiro assim. Tão importante que agora a HP tenta resgatar o velho espírito inicial de Hewlett e Packard no seu Make it Matter.

 

Nisto acreditamos. Que devemos ser bons em algo. E em paralelo testar os insights de mercado para comprovar a vantagem de estar nesta posição. Voltando a Steve Martin, agora em um de seus livros. Lá ele afirma: “Love is a promise delivered already broken.” Para as marcas, este caminho é uma rua sem saída: dizer para as pessoas somente o que elas querem ouvir. O bumerangue que você jogou irá voltar rapidamente em direção a sua cabeça mais rápido que imagina. Se não treinou para pegá-lo, terá problemas urgentes. E não serão nada engraçados.

 

Felipe Schmitt-Fleischer

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