Muitas pessoas adoram dizer que tem raízes. E por esta razão inconsistente, expressa em metáfora, justificam sua inércia diante da quebras de rotina e ameaças a zona de conforto em que se encontram. Isto só por serem estimuladas a mudanças contrárias aos hábitos culturais de suas origens. O lado negativo deste comportamento é o freio que ele provoca na evolução humana. Se o bairrismo, tradicionalismo, nacionalismo, capitalismo, radicalismo, comunismo, petismo, direitismo, socialismo, liberalismo, egoísmo e tantos ismos mais estão incrustados em suas raízes, mova-se, quem tem raiz é planta.
Mover-se é a bola da vez. Aproveitei o tema e contextualizei para dar um pau nessa história de raízes, que prendem as pessoas a lugares fixos, idéias fixas, o que incluo de forma preponderante a casa, o lugar onde nasceu, a família, amigos, escola, trabalho, casamento, relações pessoais e profissionais. O mundo move-se, é fato e talvez por esta razão as pessoas sintam necessidades digamos assim fixas, enraizadas. Só que hoje ele move-se muito mais rápido, o que deu notoriedade atual a um conceito antigo, tema deste post e que influencia muito nestes hábitos enraizados que eu particularmente condeno. É a mobilidade, que pode ter certeza vai quebrar seus paradigmas.
A mobilidade é um dos fenômenos mais importantes da sociedade contemporânea e talvez tenha sido em todas as sociedades existentes. Uma de suas representatividades mais marcantes é o sentimento de liberdade.
Um ícone clássico para mim deste fenômeno, e também para tentar tirar um pouco da sua cabeça o entendimento do tema somente vinculado as atuais tecnologias, é o filme Easy Rider, de 1969, escrito por Peter Fonda, Dennis Hoper e Terry Southern. No enredo, dois motociclistas atravessando o sul dos Estados Unidos com suas motos em busca de liberdade.
Isso é mobilidade na essência, o que remete aos hábitos de contracultura, rompedores e ousados, que só trouxeram benefícios a humanidade somente estimulando-a a questionar-se, sair do lugar de onde está e da inércia. Por esta razão é inadmissível nos dias de hoje para quem deseja evoluir, resistir a conceitos e formulas conservadoras sem ao menos compará-las testando novas formas, novas idéias de fazer acontecer o mundo.
A terra prometida, o caminho das Indias, a descoberta da América, o avanço do império Persa, a corrida do ouro, a bicicleta, o primeiro automóvel, a telefonia móvel, os notebooks, tablets enfim, dá para entender um pouco do assunto, afinal, mobilidade trata-se de elemento fundamental da dinâmica demográfica e de interesse direto de pesquisadores. Ela estende-se a diversas atividades sociais e carrega uma série de fenômenos imprescindíveis para compreender as transformações do mundo contemporâneo.
O livro do geógrafo Tim Cresswell, On the move: mobility in the modern westrn world, editado pela Routledge, em 2006, realiza um dos mais completos estudos recentes sobre mobilidade. Com nove capítulos o autor explora de forma muito inventiva e criativa, alguns aspectos interessantes, desde os home offices, os direitos de mobilidade, as mobilidades imigrantes nos aeroportos, além de outras citações em uma tentativa de ampliar a percepção sobre o tema., como faço aqui também.
Pensarmos as formas mais diversas que envolvem a mobilidade e o quanto ela nos ajuda a quebrar barreiras físicas, culturais e conceituais é uma das maiores virtudes de Cresswell neste livro. Uma análise multidimensional, seja focada em movimentos específicos ou em um esforço maior para aprender o significado de grandes processos. Neste sentido, “On the move” é uma leitura obrigatória para quem quer estudar as populações e seus movimentos através da mobilidade, não como um mero número de fluxos casa-trabalho ou campo-cidade, mas sim um dos fenômenos sociais, volto a dizer, mais importantes e complexos do nosso tempo.
Vejam as campanhas da TIM e da Fiat abordando o tema e notem a percepção destas marcas sobre estas mudanças. Não estou avaliando aqui a eficiência das campanhas ou se as marcas são leais ao seu discurso e sim a sacada com relação a este conceito na mudança de comportamento da geração atual com a mobilidade e aproximando suas marcas deste conteúdo.
Para exemplificar o efeito nas formas de trabalho por exemplo, muitas empresas paulistas estão incentivando seus executivos a trabalharem em casa para não perderem o tempo de produtividade em deslocamento no trânsito. Em suas atividades a tecnologia proporciona a mobilidade que antes era oferecida pelo automóvel, mas que agora está preso no trânsito.
No jornalismo, minha profissão, por exemplo, os avanços tecnológicos dos dispositivos móveis agregam a sua forma de produção uma nova realidade, que oferece aos repórteres em campo novas condições técnicas e operacionais para o exercício da profissão de forma remota.
As notícias de hoje podem ser produzidas através de um dispositivo móvel, de qualquer lugar a qualquer hora, assim como demarcadas por GPS, fincadas em mapas no momento de sua construção, possibilitando gerar novas informações. São mudanças apontadas e caracterizadas pela digitalização de artefatos e processos, que desencadeiam novos comportamentos no trato com a informação jornalística ao incorporar estes elementos da comunicação móvel. Eles permitem através de um só aparelho, a captação de imagens e sons, produção de textos, diagramação, editoração, edição de imagens e vídeos, além de sua publicação, compartilhamento e demarcação. Tudo isso por uma mesma pessoa, e o mais intrigante, não necessariamente um jornalista. Isso é mobilidade.
John Pavlik (2001) no livro “Journalism and New Media” aborda a questão a partir de um experimento denominado de “estação de trabalho do jornalista móvel” em que o jornalista poderia, por exemplo, com uma câmera digital, um Palm Pilot, ferramentas de reconhecimento de voz e gravador digital e conexões disponíveis produzir uma reportagem contextualizada e a distância. Alguém já viu uma redação de um grande jornal ou telejornal? Quem já viu sabe o impacto que estas constatações de Pavlik implicam nestas mega estruturas.
O jornalismo, assim como outras profissões passa por uma reconfiguração dos seus processos produtivos que no mínimo nos provoca questionar sobre os processos antigos: estruturas fixas, horários fixos, números fixos, padrões e rotinas fixas. O que você está fazendo aí parado? Mova-se, afinal quem tem raiz é planta.
Jornalista/MBA em Marketing
sócio-diretor da Business Press Inteligência em Comunicação e Marketing
Pensador Mercadológico