Suspeito que a cada dia que uma pessoa passe na UTI envelheça sete. Para os familiares mais próximos, para cada visita, três dias de envelhecimento, com angústias, preocupações e dúvidas sobre o futuro. Ou melhor dizendo, o dia seguinte, pois ‘futuro’ em UTI é algo muito distante. Vai se vivendo, dia após dia, em uma aflitiva roda de minutos.
São 30 minutos de visita, cronometrados, duas vezes por dia. Antes de a porta se abrir eu percebo nos olhos das pessoas, ricas ou pobres, novas ou com mais idade, algo que talvez um peão de rodeio sinta ao sentar em um touro gigante para ficar alguns segundos em cima. Naquele pouco tempo antes que a “jaula” se abra, você sente o cheiro da borda da vida. O horário de visita inicia e uma enfermeira com uma prancheta toma a frente da porta. Em uma folha, constam as pessoas que conseguiram viver por mais um dia. São chamadas em ordem crescente de número de leito. Você sabe que o seu familiar está no leito 18 e por uma razão que você não quer identificar, fecha os olhos e espera que aquele nome conhecido seja lido após o leito 17. Ufa, ela está viva!
Passo nos portões que separam os “comuns” dos “super-médicos”, aqueles com poderes para salvar. Assim que tento entende-los. Assim que minha esperança os reconhece. Os visitantes formam uma fila para a higiene das mãos. Olho um por um, reparando como lavam as mãos, pois sou o leito 18 e só tem uma torneira. Nunca tinha visto um rigor tão grande com a higiene. Cada milímetro é ensaboado, uma, duas, três vezes. Ao final, uma solução antibacteriana e está pronto. Colocar o roupão e as luvas de látex.
Todas as pessoas-visitantes chegam nos seus familiares e as reações são sempre comoventes, pois UTI ninguém está muito bem. Como muitas vezes a minha mãe está dormindo, sedada, fico fazendo um carinho em sua cabeça e observando o que acontece nos outros leitos. Neste momento parece que o medo vai embora. As emoções são de atenção, carinho, amor, compaixão, perdão e aproximação. Retirando todo o contexto da situação é uma cena mais bonita que outra. Não existe o ser belo, ser rico, ser popular ou ser inteligente. Só existe o ser vivo.
De repente a enfermeira avisa com jeito que o tempo de visitas acabou. Eu olho para a minha mãe e parece que ela quer me dizer algo. Parece que sente que vou embora, mas não ouço nenhuma palavra. Quando saio por aquela porta parece que o medo ficou me esperando e me abraça. Saio andando de mãos com ele, por mais que eu tente ser positivo, otimista e crente no sucesso. Olho no relógio e começo a contar 24 horas, até a próxima visita, onde novamente o ciclo se repete e por 30 minutos eu deixo o medo do lado de fora.
Viva a vida com intensidade! Um por cento melhor a cada dia, todo dia!
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Gustavo Campos
Publisher do Pensador Mercadológico
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Gustavo Campos, administrador por formação, empreendedor por natureza. Muito estudioso, leitor voraz, odeia falar ao telefone. Gosta de tecnologia, apesar de se incomodar em pagar mais caro por ser um dos primeiros a comprar algo. Geek por estilo de vida, sempre está conectado, não sabendo o que seria de sua vida sem notebook, smartphones, tablets, Moleskine e uma boa conexão Wi-Fi com a Internet. Ambicioso, não alcançou ainda nem o início do que quer desta vida. Professor apaixonado pela vida e por sua família, dono do Max e da Pink, o casal de Yorkshires mais famosos da cidade.
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Principais fontes consultadas para este artigo:
– Minhas experiências pessoais e profissionais
– Um olhar atento de consultor e analista de mercado
– Imagem: http://www.sxc.hu/browse.phtml?f=download&id=878051




