Quando todos nós fracassamos.

A construção da imagem pessoal, de uma marca, empresa ou produto específico é uma arte. Todos nós lidamos com ela no dia a dia. Nas empresas são os setores de marketing e recursos humanos que mais tratam com a matéria. E todos sabem que o mais natural neste processo, o que incide de certa forma a “venda” de atributos, é muitas vezes tentar convencer os outros daquele ideal que projetamos para a imagem e não daquilo que verdadeiramente ela é.

Este comportamento natural do ser humano para construir uma imagem, pode estar diretamente ligado a um dos maiores medos da humanidade: o medo de fracassar. Isto porque a exigência para tornar-se aquilo que não é em detrimento de uma imagem, que queira construir, gera uma cobrança muito maior ao que se possa dar de si naturalmente, exigindo esforço e tensão constante para que não possa fracassar naquilo que não se é. E é aí que todos nós fracassamos. Quando temos medo do fracasso. E quanto mais distante da realidade for a imagem que pretendemos construir, maior será o medo de fracassar.

O medo do fracasso, assim como o seu reconhecimento, impede a construção de uma imagem verdadeira, o que faz com que as imagens falsas prevaleçam. O resultado é uma sociedade frustrada, porque o tempo todo compra imagens ideais, perfeitas, infalíveis, irreais e nada verdadeiras.

A Berghs School Of Communication, produziu uma série de onze vídeos sobre o medo do fracasso. Explicar porque fugimos tanto dos erros e como eles podem nos ajudar a ir mais longe foi o desafio de diversos especialistas das mais diferentes áreas para a produção dos vídeos. Entre os participantes que deram seus depoimentos, o escritor brasileiro Paulo Coelho. Vale a pena ver o que ele declarou e todos os outros dez. Destaco aqui o do designer Milton Glaser um dos autores de uma das mais brilhantes campanhas de construção de imagem de todos os tempos: “I Love New York”, criada noa anos 70 quando a cidade de Nova York era muito criticada na imprensa.

 

Símbolo criado por Milton Glaser

Glaser foi o criador do símbolo da campanha.

O certo é que todos nós fracassamos em algum momento de nossas vidas: em um relacionamento amoroso, no emprego, na escola, na meta estipulada no trabalho e não superada, nos resultados de uma estratégia de negócios não bem sucedida, a falta com familiares ou com amigos, nas expectativas dos pais ou dos filhos não atendida, enfim, são inúmeros os erros que cometemos e que em algum momento nos levaram a fracassar. Tudo fica ainda muito pior quando estes erros e fracassos destroem a imagem que projetamos construir. E isso só ocorre quando projetamos uma imagem daquilo que não somos ou jamais seremos.

O projeto de planejamento para a construção de uma imagem sólida de uma empresa, marca ou produto, passa pelo reconhecimento dos erros e fracassos obtidos no percurso de sua trajetoria. Levam vantagens aqueles que compreendem que o acerto, a grande tacada, aquele coelho que muitos pensam um dia poder tirar da cartola para solucionar grandes problemas, é resultado do conjunto de inúmeros erros e o aprendizado com eles. A chamada experiência exigida nos processos seletivos dos recursos humanos. Experiência nada mais é do que o tempo que você levou porrada na cara

Um dos meus escritores favoritos, o dramaturgo alemão Bertold Brecht, em seu personagem mais famoso, considerados por muitos estudiosos de sua obra como seu walter ego, seu pseudônimo, o “Senhor Keuner”, revela em uma de suas curiosas estórias, uma de suas melhores frases. Uma vez, agitado e correndo, o Senhor Keuner foi questionado por um aluno sobre em que estava trabalhando. Sua resposta: “Tenho pressa, preparo o meu próximo erro.”

Escritor e dramaturgo alemão Bertold Brecht
Escritor e dramaturgo alemão Bertold Brecht

Você saberia dizer, se alguém te perguntasse de bate pronto, quais foram os seus principais erros e ao que eles te levaram? Esta é uma pergunta que normalmente não é respondida imediatamente. As pessoas param para responder, nem que seja por alguns segundos, de forma que consigam raciocinar uma resposta que não influa na imagem que desejam causar no interrogador. Fiz esta constatação em anos de entrevistas a candidatos de empregos na minha empresa.

“A verdadeira questão embaraçosa sobre a falha é o próprio reconhecimento que você não é um gênio, que você não é tão bom como pensou que fosse”

Milton Glaser.

O reconhecimento dos erros e dos fracassos vividos é a melhor forma de se construir uma imagem de credibilidade.

O recomeçoCerta vez um amigo me procurou para falar do rumo que sua vida tinha tomado. Uma sequência sucessiva de escolhas erradas o levaram a uma situação financeira muito complicada, nunca antes vivida por ele. Naquele momento, sentindo-se fracassado, ele reconhecia seus erros, mas somente por estar pressionado pela situação em que se encontrava. Ele não admitia o fracasso e nem o suportava, era visível em seu semblante, apesar de querer demonstrar-se sereno.

Da mesma forma ele recomeçou sua vida profissional do zero como funcionário de um estabelecimento em um segmento novo. Não tinha para onde correr e nem o que lamentar. É certo dizer também, de fato, sua escolha a partir daquele momento era em algo que lhe dava realmente muito prazer em trabalhar.

Ali ele ficou por algum tempo, depois foi para outro estabelecimento do mesmo ramo, mais um tempo e foi para outro e outro, até encontrar o lugar por onde trabalharia por muitos anos. Bastante empenho, renúncias, aprendizados, a não repetição dos erros de antes e crescimento inevitável com o tempo. Ainda em paralelo neste meio tempo, atuou também como sócio de um empreendimento onde entrara somente com a força de trabalho e o expertise adquirido onde era funcionário. Muito erros e acertos nesta caminhada vitoriosa.

Acompanhei seu drama de perto e dei força como pude para que se reerguesse. Passado alguns anos, fui surpreendido por uma matéria com ele no jornal de maior circulação de seu Estado, como um empresário bem sucedido em seu segmento, o que me causou muita felicidade no primeiro momento. Ao ler a publicação no entanto, com foto dele de página inteira, fiquei mais surpreso ainda, de como era contada a sua trajetória. Nenhuma citação das suas dificuldades. Seu verdadeiro nome estava alterado como numa “jogada de marketing” e o seu sucesso estava atribuído a um dom percebido ainda na adolescência. Para piorar, a matéria anunciava a sua saída do estabelecimento que trabalhara há anos, sem ao menos anunciar uma substituição para o seu lugar. Que imagem causara essa pessoa em mim e nos seus amigos mais próximos que conheciam todo o seu martírio até ali? Uma história fake. Paciência!

Essa breve história ilustra bem como somos diante dos nossos fracassos. Não enxergamos o brilho que ele dá a nossas histórias. O brilho da verdade de como as coisas são. O mesmo brilho que vi nos olhos dos jovens do colégio Catarinense em Florianópolis, na palestra do Rafael Zobaran – Ultramaratona uma lição de vida, citada em meu post – Você é medíocre. Uma imagem criada por uma história verdadeira, sem medo do fracasso, ou pelo menos sem que esse medo o impedisse de ser ele mesmo.

Esta construção de imagem pessoal e profissional ainda está em curso e provavelmente mude-se de idéia ou estratégia lá na frente, quando passar o trauma e o medo de fracassar novamente.

Alguém duvida da intacta imagem criada por Ronaldo Fenômeno após ele ter fracassado em 1998 diante da França? Ou quando fraturou o joelho? O medo do fracasso também veio em 2002 de toda imprensa e sociedade brasileira com sua escalação. Ele e o técnico Felipão não tinham esse medo, ou se tiveram o enfrentaram, o que ficou mais lindo com o resultado final da competição.

Para finalizar esse meu extenso pensamento sobre um tema tão profundo, iniciado pela pensadora Aline Jaeger ainda esta semana aqui no blog, confira o post – Aceite o fracasso, vou citar a história de Mohammad Ali, que li no blog de uma marca, que está reconstruindo a sua imagem para o público jovem, mas que fica cada vez melhor quanto mais envelhecida. A marca Chivas, no seu Chivalry Club.

 

Muhammad Ali

 

“Eu sou o melhor. Eu dizia isso até antes de saber que eu era”, dizia o boxeador capaz de fazer o mundo

parar para assisti-lo. Provocador, rápido e com um soco capaz de derrubar qualquer homem, o americano foi considerado o maior lutador de todos os tempos. Das 61 lutas na carreira, perdeu apenas cinco vezes. Mas as poucas derrotas viraram as maiores aulas de sua vida. Em uma delas, em 1973, Muhammad lutava contra Ken Norton e teve a mandíbula quebrada (nem os locutores acreditavam). Perdeu a luta por pontos. Era a segunda derrota em sua carreira – e a primeira vez que percebia não ser indestrutível.

Muhammad não culpou seu adversário, não evitou a imprensa e nem contestou a decisão dos jurados. Ele simplesmente falou: “eu nunca pensei em perder, mas agora que aconteceu, a única coisa que resta é fazer direito. Essa é minha obrigação com todas as pessoas que acreditam em mim. Todos precisamos sofrer derrotas na vida”

Ary Filgueiras

Jornalista/MBA em Marketing

@aryfilgueiras

aryfilgueiras.wordpress.com

Diretor da Business Presss – Inteligência em Comunicação e Marketing

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Quando todos nós fracassamos.

Você é medíocre

A mediocridade é uma condição humana e não importa o quanto ela nos incomode nos outros, um dia, uma hora ou em um determinado momento, teremos que lidar com a nossa.

Você em algum momento de sua vida já se perguntou o quanto é medíocre? Se sua resposta foi sim, parabéns, você é um daquelas pessoas que pratica o autoconhecimento, reconhece e descobre que pode ser muito melhor, que sua existência pode deixar um legado maior, mesmo tendo sido muito ousado e produtivo em sua vida até o momento.

Nos meus estudos sobre jornalismo, a maior matéria sobre o tema e o que os maiores estudiosos defendem sobre esta profissão, é o seu papel na produção do conhecimento social.

Um bom jornalista quando produz uma matéria sobre um determinado fato ele investiga todos os pontos de vistas, ouve diversas fontes, colhe depoimentos de duas ou mais partes conflitantes sobre o objeto e publica a reportagem para que todos os leitores do veículo conheçam ou fiquem bem informados sobre o acontecimento abordado. Assim a sociedade, o ser humano, se vê todos os dias nos jornais e se conhece. Você pode não concordar, mas aquelas notícias ruins e também as boas, que são publicadas nos jornais são um pouco de nós mesmos, humanos, falíveis, insuportáveis, deprimentes, medíocres, mas também surpreendentes, inacreditáveis e admiráveis.

Neste contexto, qual seria o papel de um jornalista então dentro de uma organização? Vamos ser específicos ao tema que me disponho a escrever aqui no Pensador Mercadológico: o que o jornalista de uma assessoria de imprensa deve produzir para os clientes que atende?

Eu acredito que seja conhecimento, principalmente sobre a organização, mas não é isso que a maior parte das empresas entende e faz. A maioria usa este serviço exclusivamente para informar ao mercado, através do relacionamento com a imprensa, suas novidades em produtos e serviços.

São poucos os que produzem conhecimento sobre a empresa de forma jornalística. Em linguagem simples seria assim: uma empresa entende, dentro de suas pesquisas que seu produto ou serviço é pioneiro no mercado e que vai causar uma grande revolução no setor. O jornalista entraria em cena para investigar isso, saber a verdade sobre esta afirmação, consultar técnicos do mercado, ouvir fontes diferentes, se tem consistência, se não já existe algo parecido e se de fato vai causar alguma revolução.

O resultado deste trabalho é o autoconhecimento sobre as pretensões da empresa, muito importante também para a definição de sua estratégia sem devaneios, assim como a decisão se de fato é relevante para o mercado e a sociedade a ponto de divulgar para os jornais publicarem algo como notícia ou recomendação.

Falo isto com base em experiências próprias de mercado, trabalhando e convivendo com centenas de empresas e marcas em mais de 15 anos na profissão. Este pequeno relato acima deveria ser o papel do jornalista nas organizações, uma extensão do que é para a sociedade: um investigador dos fatos para o autoconhecimento das pessoas e das empresas, fazendo com que em um determinado momento de sua história ela consiga enxergar também o quanto é medíocre e que pode fazer melhor, evoluir. No entanto não é assim que acontece, mas vale a reflexão.  O certo é que, da mesma forma como aqueles poucos que responderam sim a pergunta inicial deste post, poucas são também as empresas que identificam uma causa real para sua existência.

No último dia 17 de junho assisti a uma palestra diferente, que me inspirou escrever este post de hoje. Nela, o palestrante, Rafael Zobaran, um amigo que conheço há 16 anos, contava sua impressionante história de vida ao enfrentar um câncer aos 27 anos de idade, superá-lo e tornar-se um ultramaratonista.

No meio de sua retórica narrada em detalhes na palestra carregada de emoção e desabafo, Zobaran é muito duro quando fala sobre as escolhas que fez na vida (segundo ele começaram aos 10 anos) e decreta falando para si mesmo no auge do autoconhecimento: Você é medíocre.

A platéia ficou perplexa sobre o quanto ele sentia-se assim analisando sua adolescência e juventude regada a farras e exageros da idade. Percebi em reflexão sobre aquele momento da palestra o quanto era profunda e verdadeira aquela afirmação, mesmo que chocante e provocadora, mas dita por alguém com autoridade para falar sobre o assunto.

Naquele momento pensei também na minha vida e apesar do palestrante não revelar a platéia que teria sido também um diretor de uma grande empresa, liderado equipes de vendas e possuir sempre uma capacidade enorme de trabalhar e construir resultados, ainda assim conseguiu enxergar sua mediocridade, tendo o câncer como o grande propulsor deste questionamento.

O fato é que Rafael Zobaran encontrou uma causa para sua existência na vontade de viver. Passou a correr de forma amadora somente para se reabilitar da saúde debilitada pela quimioterapia e o tratamento do câncer. Com o tempo foi alcançando metas cada vez maiores, afinal ele havia mudado sua atitude diante da vida. Hoje ele é ultramaratonista, corre provas de 50km, 85km, 100km e mais.

Naquele dia depois da palestra, realizada para um público jovem do tradicio0nal Colégio Catarinense, em Florianópolis, Zobaran me convidou para acompanhá-lo como apoio em uma prova de 52km no oitavo Deasfrio de Urubici, a cidade mais fria do Brasil, na serra catarinense. No dia da prova acompanhando seu esforço e todo trajeto realizado em cinco horas e trinta e sete minutos de corrida, fiz também o exercício que recomendei aqui a todos.

“- É nossa obrigação como ser humano nos tornarmos em algo melhor.” O ser humano é medíocre, mas pode tornar-se grandioso quando faz as escolhas e toma as atitudes certas diante da vida. Não importa o que você é, mas o que você vai fazer com isso.

Esta experiência mexeu comigo e com minhas convicções e tenho o prazer de compartilhar com vocês todos. Quem quiser conhecer um pouco mais sobre a história de Rafael Zobaran, acesse o site www.ultrazobaran.com

Abaixo o vídeo da prova de Urubici.

Ary Filgueiras

Jornalista/MBA em Marketing

sócio-diretor da Business Press Inteligência em Comunicação e Marketing

@aryfilgueiras

Pensador Mercadológico

www.pensadormercadologico.com

Você é medíocre