Encontre Seu Mapa

Conta uma antiga história do final do século XIX que certa tropa do exército húngaro fazia manobras militares nos Alpes. Certa manhã um destacamento de homens foi enviado para exercícios nas montanhas, no entanto imediatamente após sua saída do acampamento, as condições climáticas começaram a se deteriorar rapidamente. O tempo fechou, com forte nevasca combinada com uma queda brusca de temperatura. O comandante que havia ficado já demonstrava sinais de preocupação. Quando os soldados não voltaram no tempo combinado, o pior passava pela sua cabeça, havia enviado seus homens para a morte. E esse sentimento de desespero e desesperança acompanhou os dois dias seguintes, quando no final da tarde foram avistados os soldados retornando. Uma festa aconteceu no acampamento, já que muitas davam certo que teriam que resgatar os corpos de seus companheiros.

Mas o que tinha salvo esses homens? O comandante após longos abraços questiona o que tinha acontecido afinal. Um dos soldados conta que após a nevasca eles se deram contam que estavam perdidos. A noite se aproximava e não sabiam direito o que fazer, além do desespero tomar conta da tropa. Foi então que um outro soldado vasculhando os bolsos de sua farda encontrou um mapa. Alívio retomado. Então resolveram montar acampamento ali mesmo e esperar o tempo melhorar. Quando isso aconteceu, olharam o mapa de novo, tentaram entender mais ou menos onde estava e partiram para o caminho de retorno à base. E assim chegaram cansados, mas salvos. Nisso o comandante pede para olhar o tal mapa salvador. Quando lhe é mostrado, uma surpresa toma conta. O mapa não era dos Alpes, região em que estavam, mas dos Pirineus, uma outra cadeia de montanhas européia.

Certa vez Martin Buber disse: “All journeys have a hidden purpose that is unbeknown to the traveller.”

No ambiente empresarial, equipes muitas vezes tem visões distantes de quais objetivos a sua corporação persegue. Tal qual aquela soma de vetores da física, quando setas puxam para diversas direções diferentes, a resultante será muito fraca. Em outras palavras, a empresa não vai para a frente, para onde deveria ir, no sentido que seu planejamento inicialmente propunha. Henry Mintzberg, estudioso e cético sobre planejamentos estratégicos, coloca que a própria expressão “Planejamento Estratégico”é contraditória, já que um é análise e outro síntese. Passando por cima das dificuldades naturais desse processo (e os gestores conhecem bem isso, especialmente nessa época de final de ano), tendo a estratégia definida, ela precisa ser “traduzida” de forma clara e compreensível para os executores da mesma, não apenas diretores e gerentes, mas sobretudo a linha de frente. Não adianta, por exemplo, termos uma bela estratégia de diferenciação com base em serviços para um varejista, se ao entrar na loja os atendentes tratam os clientes como números. É o tipíco caso em que o planejamento estratégico foi parar no cofre da empresa. Não serve para nada.

Conforme já abordamos, o Balanced Scorecard, metodologia desenvolvida pelos professores Kaplan e Norton, propõe a transformação da estratégia em um mapa, de objetivos e indicadores. Todos eles conectados com a proposta de valor da empresa. Assim, não basta juntar uma série de indicadores operacionais (e muitos negócios são pródigos em ter controles) e pensar que por ali será possível quantificar estrategicamente os acertos. Mapa estratégico não é painel de indicadores. Está além disso, pois busca capturar a essência da estratégia, por que somos escolhidos pelos clientes e como sustentamos essa proposta. Se for algo diferente disso, as chances de haver apenas uma enganação entre planejadores e equipe são muito altas.

Um bom mapa estratégico deve ser único. Mesmo quem nunca trabalhou na empresa ao olhar para ele, deve entender claramente qual a estratégia daquele negócio. Se o mapa servir para qualquer empresa do segmento, ou até mesmo de outro, jogue-o fora e comece de novo. Por outro lado, nunca esqueça que um mapa é sempre uma tentativa de representação da realidade. Ele não é a realidade. Assim, imperfeições acontecem e devem com o tempo ser ajustadas. Imagine o poder que aquele mapa, mesmo errado e teoricamente inútil, teve sobre os soldados húngaros. Agora pense o que um mapa muito próximo da realidade pode fazer por sua equipe e por consequência por sua empresa.

Felipe Schmitt Fleischer

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Pensador Mercadológico

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O Império das Meias-Verdades

De tempos em tempos somos atingidos por declarações que parecem doutrinas da verdade absoluta. Em administração é particularmente curioso, pois a verdade de ontem é a mentira de hoje. E com chances de ressuscitar como verdade amanhã. Assim já vimos as mais diversas “ondas” de mantras para orientar os rebanhos de gestores ao redor do globo. Quem já não ouviu frases feitas como “globalize ou morra”, “o caixa é o mais importante”, “corte custos ou feche”, entre tantos. Na esteira de cada fase, livros e autores da vez são cultuados como os deuses do momento. O império das meias-verdades é o império das meias-mentiras.

A orientação das grandes corporações, sobretudo norte-americanas, durante os dinâmicos anos 80 era o resultado rápido, potencializando alavancagem de capital através de bolsa de valores. O caixa era a bola da vez. E para isso você pode realizar inúmeras Continue reading “O Império das Meias-Verdades”

O Império das Meias-Verdades

Sucessos Efêmeros

Quem já não leu um livro sobre administração recheado de exemplos de sucesso? Bem normal, já que todos os autores buscam usar referências conhecidas para ilustrar suas teorias. A partir desse momento esses cases são replicados à exaustão por professores e consultores do mundo inteiro. E o ciclo fecha-se com essas marcas tornando-se tão célebres quanto as teses que exemplificam. Para relembrar alguns famosos livros, autores e marcas relacionados, uma lista abaixo ajuda a lembrar. No entanto, o curioso desses casos todos é que estavam redondamente equivocados. Alguns poucos meses após serem apresentados como sucesso, frequentaram as páginas do fracassos absolutos. Ou na contramão, marcas apresentadas como fadadas ao fracasso, seguiram o caminho da consagração.

MARCAS APRESENTADAS COMO EXEMPLOS POSITIVOS

MARCA – LIVRO – AUTOR

ATARI – VENCENDO A CRISE – TOM PETERS

SATURN – BRAND EQUITY – DAVID AAKER

FANNIE MAE – FEITAS PARA VENCER – JIM COLLINS

CIRCUIT CITY – FEITAS PARA VENCER – JIM COLLINS

MAS QUE FORAM DO SUCESSO AO FRACASSO!

MARCAS APRESENTADAS COMO EXEMPLOS NEGATIVOS

MARCA – LIVRO – AUTOR

AUDI – A ORIGEM DAS MARCAS – AL RIES

PORSCHE CAYENNE – THE BRAND GAP – MARTY NEUMEIER

MAS QUE FORAM DO FRACASSO AO SUCESSO!

Isso que não falamos das capas de revista de negócio, exibindo empresas com enorme sucesso em determinado mercado, como exemplo o varejista de moda de baixo custo Steve & Barry’s. Pouco tempo depois de ser citado pela revista Exame como exemplo bem sucedido de modelo de negócio, a empresa entrou foi à falência, abalada com a queda brusca de vendas. E que dizer do Hall of Fame do Balanced Scorecard de Robert Kaplan que incluía o Unibanco? Pouco tempo passado, o banco brasileiro foi engolido pelo mais eficiente Itaú. Mas o que acontece com as empresas que passam de cisnes a patinhos feios como um toque de mágica? E o que faz autores mundialmente famosos escolherem essas empresas para enfatizar suas obras?

Algumas possibilidades podemos levantar sobre as incongruências observadas:

– as marcas e empresas estavam vivendo momentos extremamente felizes (ou infelizes) em seus negócios

– os modelos de negócio sofreram abruptamente com mudanças de mercado (quando as regras mudam, o jogo começa novamente)

– as marcas foram exceções às regras observadas pelos teóricos

modelos fixos são perigosos para serem ditados como verdades absolutas

Esta última possibilidade desperta um alerta importante para todos envolvidos em programas e consultorias de management e branding. Muita atenção e critério ao analisar e tentar extrapolar exemplos para aplicação em nossos negócios. Existe uma quantidade significativa de variáveis que envolvem um sucesso ou fracasso, tanto internas e externas às empresas. Assim as leituras comparativas devem respeitar um grau de interpretação que leve em conta esses detalhes, não vendendo falsas promessas para resguardar a amplificação de meros sucessos efêmeros. Histórias são únicas e muitas delas podem ser contatadas apenas uma vez, pois as razões que a levaram até certo ponto, jamais irão se repetir de forma conjunta novamente. Isso tudo também lembra bastante a famosa visão mecanicista ou cartesiana de ver (e entender) o mundo, desconstruída na obra de Fritjof Capra e no filme Ponto de Mutação. Pensar que alguns ajustes específicos nas peças, produzirão um efeito no resultado do todo. Basta repetir o mesmo ajuste e os efeitos se multiplicarão por todos os lugares. Nem sempre será assim, aliás, raramente o resultado será igual.

Felipe Schmitt Fleischer

@fsf11

Pensador Mercadológico

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Formigas, megafones e líderes autênticos

Seth Godin, um dos grandes pensadores mercadológicos, proclamou que as formigas agora têm megafones. Uma metáfora para dizer que os consumidores, antes apenas bombardeados por informação com raras chances de contra golpear (exceto em casos muito especiais, como Ralph Nader nos anos 60), a partir do advento das web e mídias sociais têm possibilidade de enviar comunicação no outro sentido e com poder de amplificação. Uma forma de declarar que a balança de forças entre corporações e clientes poderia partir para um novo equilíbrio. Mas a questão é até que pontos as ferramentas sociais postas podem criar novos líderes para grandes causas? Em recente artigo escrito para o jornal britânico The Guardian, Malcolm Gladwell desconstruiu a ideia existente que as redes poderiam alavancar o surgimento de movimentos consistentes. Em outras palavras, nem Twitter nem Facebook poderiam alterar substancialmente o mundo real na visão do autor de The Tipping Point.

Se a tese proposta por Gladwell comprovar-se será um enorme revés para a crença que o ambiente digital estaria abrindo espaço para novas lideranças desenvolverem sua capacidade de mobilização, uma carência no momento atual. No ambiente empresarial, as dificuldades são semelhantes. Diversos analistas, dentre eles Jim Collins a Robert Kaplan, destacam o papel fundamental dos líderes para tornar uma organização capaz de ultrapassar os limites da mediocridade. Em algumas empresas a palavra líder é traduzida diretamente como um capitão de navio, berrando sem parar ordens para seus subalternos. Não é deste caso que falamos. É o outro, aquele que orienta e indica, apóia e patrocina as ações positivas no sentido para alcançar os objetivos corporativos e pessoais (que em algum lugar devem se encontrar).

  

Entre as ferramentas disponíveis para execução estratégica, o Balanced Scorecard foi uma das que mereceu maior destaque na última década. Formalizada no início dos anos 90 pelos professores e consultores Kaplan e Norton, o BSC como é popularmente conhecido, busca traduzir a estratégia, normalmente qualitativa e com enfoque de prazo, para algo quantitativo (ou seja mensurável) e vinculado com a operação diária da empresa. Assim, aproximar o orientador máximo da empresa de um instrumento direto aos colaboradores, no qual enxergam os seus papéis para que a estratégia seja implementada e os objetivos alcançados. Como toda teoria administrativa, a prática trata de testá-la e modificá-la, tão logo surjam as dificuldades e barreiras. A partir dos processos de implementação do BSC foram identificados alguns fatores críticos para garantir o sucesso:

  

Participando diretamente de projetos de Planejamento e Implementação Estratégica pude identificar que se alguns desses critérios não é atendido adequadamente, as chances do projeto fracassar são muito consideráveis. Sobretudo em  relação ao último ponto: Patrocínio. Caso o envolvimento no topo da organização seja baixo e sem energia, a tendência natural será de abandono da ferramenta e por consequência a estratégia perderá uma oportunidade interessante de deixar o famoso Book de Planejamento Estratégico. E quando falamos desta participação da liderança máxima da organização, não basta somente ocorrer nos momentos iniciais, nos quais geralmente por natureza já existe um nível de interesse e energia altos por parte da equipe. O “momento da verdade” acontece nos meses seguintes, quando será posto à prova se o procedimento irá ser incorporado no dia-a-dia do negócio ou não. Ou os assuntos urgentes tomarão o lugar dos assuntos importantes, como invariavelmente acaba por acontecer nas empresas.

Voltando a Godin e Gladwell, os instrumentos de comunicação imediatos e com poder de propagação estão disponíveis a todos. O salto está em como usá-los devidamente para causar ressonância de pensamento nos outros e não ficar restritos unicamente a ferramenta, mas aos resultados que desejamos. Da mesma forma, em paralelo implementações estratégicas devem partir da mesma perspectiva. Sem a liderança ativamente patrocinando o processo a mobilização é efêmera e insustentável. Tal qual certas mobilizações que ficam apenas restritas ao mundo virtual mas que não conseguem nada no mundo real. Somente ideias fantásticas para mudar e melhorar o mundo, mas nada além disso. O tempo é precioso demais e a urgência das empresas em rapidamente executar também (leia o post Planejar ou Agir Logo? http://pensadormercadologico.com/2010/10/14/planejar-ou-agir-logo/ ). Então é chegado o momento de avaliar aonde queremos de fato estar e fazer as escolhas críticas necessárias.

Felipe Schmitt Fleischer

Pensador Mercadológico

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