É a economia, estúpido!

Esta era a resposta de Bill Clinton quando lhe perguntavam qual era sua plataforma de governo na campanha em que bateu George Bush (o pai) que ganhou a Guerra do Golfo, mas deixou os Estados Unidos abalado financeiramente.

Pois bem, esta frase está mais atual do que nunca para explicar boa parte das convulsões sociais que estão proliferando pelo mundo.

Diferentemente do que certos jornalistas mal informados, ingênuos ou mal intencionados querem nos fazer acreditar, estas mobilizações não estão acontecendo graças ao Facebook e ao Twitter.

Os movimentos populares globais como a Primavera Árabe e o Occupy Wall Street. são reações ao agravamento da situação econômica dos povos já tradicionalmente oprimidos do mundo Árabe e do desemprego e endividamento do cidadão comum na Europa e nos Estados Unidos, ambos reflexos da crise econômica mundial que se iniciou em 2008.

A “salvação” que veio do ocidente

No caso do Oriente Médio, estimula-se o estereótipo de que os povos destes países estão sendo libertados pela tecnologia ocidental, esvaziando a importância da sua própria revolta e deliberadamente esquecendo que foi o apoio ocidental às ditaduras locais que gerou esta situação de degradação econômica e cerceamento de liberdades.

Já em Wall Street, o que se vê é o americano médio, desempregado, sem o apoio do Estado que não vê outra saída a não ser protestar – o que também acontece na Europa com sua juventude sem perspectivas – e nestas condições eles protestariam com ou sem redes sociais. Querem um exemplo?


França, Maio de 1968 – uma série de greves estudantis às quais aderiram dez milhões de trabalhadores, aproximadamente dois terços da força de trabalho do país – 40 anos a.F. (antes do Facebook)

Justin Bieber e a corrupção

No Brasil, onde a maioria da população está usufruindo as benesses da estabilidade econômica, se concentra mais gente na frente do hotel onde está hospedado o Justin Bieber do que em uma manifestação convocada pelas redes sociais, como pode ser visto nas matérias abaixo:

O Estado de São Paulo – 07/09/2011
“Centenas de pessoas protestaram contra a corrupção e a impunidade …. O primeiro ato reuniu pelo menos 300 jovens de classe média, mobilizados pelas redes sociais da internet. “

Portal Terra – 04/10/2011
“A presença de Justin Bieber no Brasil já causa alvoroço entre as adolescentes. O cantor, …está hospedado no Copacabana Palace, no Rio de Janeiro e uma multidão de fãs se aglomerou em frente ao hotel para tentar ver o ídolo teen.”

E se compararmos as mobilizações das redes sociais (contra a corrupção, em defesa das bicicletas, contra a censura, contra a impunidade, etc) com um show da Ivete Sangalo, conquista do título do seu time ou qualquer procissão religiosa, então chega a ser covardia.

Ou seja, não é uma causa nobre que vai tirar o usuário das redes sociais da frente do computador. Enquanto as crianças puderem passar as férias na Disney, os jovens puderem comprar o último lançamento da Apple e os adultos puderem trocar de carro no fim do ano, a indignação mobiliza somente o dedo indicador para clicar no “like”.

Os 300 de Porto Alegre

Muito antes da façanha de utilizarmos o alcance ilimitado das redes sociais para reunir 300 pessoas em Porto Alegre (cidade de mais de um milhão de habitantes), já fomos capazes de mobilizar muito mais gente só no boca-a-boca:

Diretas já – São Paulo 1984 24 anos a.F. (antes do Facebook)
Em janeiro de 1984, cerca de 300.000 pessoas se reuniram na Praça da Sé, em São Paulo. Três meses depois, um milhão de cidadãos tomou o Rio de Janeiro. Algumas semanas depois, cerca de 1,7 milhão de pessoas se mobilizaram em São Paulo.

Não por coincidência, o Brasil estava em plena “década perdida”, com um crescimento econômico pífio, inflação nas alturas e altos índices de desemprego. E a possibilidade de votar para presidente, se acreditava na época, seria nossa redenção econômica.

O órgão mais revolucionário do homem é o bolso

A conclusão que se chega é que as revoluções acontecem quando somos obrigados a sair da zona de conforto. Aparentemente o capitalismo selvagem foi ganancioso demais, instabilizando as ditaduras que ele apoiava no Oriente Médio e comprometendo o suprimento do anestésico econômico que deixava acomodada a classe média dos países do primeiro mundo.

Por isso, creditar estas mobilizações unicamente ao poder de mobilização das redes sociais é negar as revoluções que aconteceram no passado, desmerecer os protagonistas dos movimentos atuais e desviar o foco das suas verdadeiras motivações.

“You say you want a revolution. Well, you know…”

Leandro Morais Corrêa
Jornalista/Pós-Graduado em Marketing

leandromoraiscorrea.wordpress.com
Diretor da Business Press Inteligência em Comunicação e Marketing
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É a economia, estúpido!

A gritaria é mesmo tão alta assim?

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Nota do Publisher do Blog: Este é o primeiro texto de nosso novo Pensador Mercadológico. Alessandro Garcia é criativo na REDE106, agência do Grupo ABC, em São Paulo. Escritor e colunista de cultura no GloboOnline, é autor de “A sordidez das pequenas coisas” (Não Editora, 2010). Escreve em alessandrogarcia.com

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A gritaria é mesmo tão alta assim?

Você já viu isto: uma grife de bolsas e sapatos lança uma coleção de nome “Pelemania”, baseada em peles exóticas de animais, como raposas e coelhos. Logo se torna alvo de críticas ferrenhas no Facebook e Twitter, que questionam uma suposta postura ecológicamente incorreta por parte da empresa.

A marca não comprou a briga e rapidamente retirou a coleção. Não discutiu se quem criticava era público-alvo, ecologistas com conhecimento de causa, eco-chatos doidos por uma diatribe ou somente um bando interessado numa gritaria e em emplacar mais uma hashtag no Twitter. Enviou um comunicado oficial morno e pronto.

Este episódio aconteceu em abril de 2011. A empresa vai muito bem, obrigado. E é claro que todos sabem a que marca me refiro. Porque ela não desapareceu, controlou sua crise, embora possa ter levantado a questão: a retirada dos produtos era a atitude correta a ser tomada? É um questionamento que pode dar início a uma discussão gigantesca – principalmente por envolver aspectos tão frágeis e, contraditoriamente, sobre os quais todo mundo tem um opinião para dar: o politicamente correto e o ecologicamente sustentável, questões que são o calcanhar de Aquiles de milhares de empresa – mas que também encerra duas verdades incontestáveis:

1) A noção de que as empresas estão nuas e expostas diante do mercado e da sociedade é cada vez mais clara;
2) Ter uma resposta clara e rápida a uma possível crise é essencial. Mas ela deve ser cerceada pelas manifestações nas redes sociais?

Não precisamos ir muito longe para lembrar que a marca GAP enfrentou algo parecido nos Estados Unidos, quando sua nova identidade visual foi rechaçada. Não obstante o fato do seu novo projeto de marca ter sido um movimento equivocado, ela rapidamente capitulou aos protestos na internet e voltou atrás em sua decisão. E quantos eram gritando?

É fundamental estar atento ao que falam sobre sua marca na internet, isto ninguém discute. Mas não está havendo uma subserviência excessiva e automática ao menor grito de “fogo”? O incêndio é real ou só trote de um bando de moleques ligando para os bombeiros por diversão? A impressão que fica é que estratégias, planejamento de marca, ações, objetivos de longo prazo estão sendo jogados por terra à menor possibilidade de alguém “não ir com sua cara na internet”. Parece haver um sentimento exacerbado de intimidade e condescendência por tudo o que os “internautas” (típico termo usado por aqueles que continuam a considerar os usuários de internet – todos nós – um target à parte) estão manifestando, um medo de não agradar que acaba mudando rumos previamente estipulados e alterando de forma indelével a rota – e a imagem – de marcas.

Afinal, foi mesmo a grã-fina dos Jardins que protestou perante o uso de pele de raposas na coleção daquela marca a que nos referimos? Ou o moleque blogueiro com uma horda de followers, louco por um bom rebuliço?

Longe de mim desconsiderar a importância que as manifestações nas redes sociais exercem. Para o bem ou para o mal, elas são uma realidade, tornando cada vez mais factível inclusive a realização de causas de interesse público A discussão sobre o Metrô em Higienópolis, aqui em São Paulo, é um exemplo disto. O “Churrasco da Gente Diferenciada” surgiu com cara de galhofa, mas mobilizou uma discussão justa e realmente relevante.

Transparência, reciprocidade de comunicação, agilidade. Estão aí fundamentos maravilhosos possibilitados pelas redes sociais. O grande risco é quando se passa a gerenciar marcas levado pela ventania que sopra dos brados emitidos neste não-lugar por vezes assustador. Não se pode contentar a todos – o resultado de uma tentativa destas é uma marca cada vez mais desprovida de personalidade, imatura em sua comunicação e tão ansiosa para agradar como uma menina no seu primeiro dia na faculdade. “A obediência cega e servil é burra”, já afirmou Jaime Troiano no artigo As marcas diante das redes sociais.

A Teoria das Multidões é um princípio que deve ser levado em conta ao analisar manifestações virulentas na internet perante as marcas. O comportamento humano se modifica quando na companhia de um bando, em uma impulsão mútua numa direção que, em questão de minutos, amplifica uma voz uníssona (ainda mais se os componentes desta “voz” são quase anônimos, escondidos por trás de obscuros profiles), mas já não mais necessariamente movida pelo bom senso. Todos se deixam levar pela massa que comanda – e aí não importa se a massa já não pensa mais. Assim como a imprensa, fica cada vez mais claro que as redes sociais também são necessitadas de uma “agenda da mídia”: quem é a ovelha da vez pronta para ser dilacerada? Pode ser uma celebridade instantânea, um cantor sertanejo, um capítulo de novela. Ei, que tal aquela marca?

As redes sociais estão no jogo como mais uma ferramenta a auxiliar estudos de percepção de marcas, campanhas e ações. Um adendo rico a uma sólida estratégia de planejamento (isto quando uma ação nas redes sociais não for a estratégia em si, mas isto é outra história), devidamente interpretada por perspicazes planners e gestores na concepção de produtos e serviços. E quem confia na criatividade, solidez e pertinência do seu trabalho sabe diferenciar muito bem: afinal, é seu público que está gritando ou só uma horda de bárbaros sedenta por sangue?

Alessandro Garcia

www.alessandrogarcia.com

Pensador Mercadológico

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A gritaria é mesmo tão alta assim?