As bordas do conhecimento, a velocidade da mudança e o fluxo da riqueza.

Alguns eventos recentes fizeram com que eu escrevesse este post, que já queria ter finalizado em Novembro de 2011 (data da entrevista que fiz, que lerão abaixo). Estive recentemente em um evento chamado Fronteiras do Pensamento, ao mesmo tempo que foi divulgado um importante estudo mundial sobre a criatividade pela empresa Adobe, estou lendo a teoria de Steven Johnson no livro “De onde vêm as boas ideias” e tenho um amigo, daqueles bem criativos, que se dispôs a responder 3 perguntas em uma entrevista que fiz. Estes 4 fatores se somaram com o “dever” de pelo menos contribuir com uma ideia diferente por semana para o Blog e fizeram que eu aproveitasse uma leve insônia e definitivamente escrevesse este post em um domingo gelado e chuvoso de minha cidade, aproveitando todas estas casualidades.

Do evento “Fronteiras do Pensamento”, para este post, quero compartilhar apenas a ideia central do evento. O nome para mim é genial. Fala de algo de borda, que recém nasceu ou está para nascer. Tu até consegue ver a “fronteira” e sabe que o tema está no limite do conhecimento humano. Não é para ser algo inovador, mas sim uma ideia de fronteira de conhecimento, algo que pode ou já está sendo aplicado e/ou visto na sociedade, mas que um estudioso do tema, o principal pensador do mundo neste tópico (trazem muitos pensadores prêmio Nobel para falar), vem e palestra durante 2 horas definindo bem esta borda. Retirado do site do evento, temos a definição deste negócio com as palavras dos idealizadores: “O Fronteiras do Pensamento é um projeto cultural múltiplo que aposta na liberdade de expressão intelectual e na educação de qualidade como ferramentas para o desenvolvimento. Através de uma série anual de conferências, o Fronteiras abre espaço para o debate sobre a identidade do século XXI, apresentando pensadores, cientistas e líderes que estão, cada um a seu modo, na vanguarda em suas áreas de pesquisa e pensamento”. Um resumo da primeira palestra do ano, do Prêmio Nobel Amartya Sen, encontra-se neste link. Então, deste primeiro fato eu destaco o conceito do negócio.

Da pesquisa da Adobe, que teve como objetivo identificar os comportamentos e crenças sobre criatividade no trabalho, escola e em casa, eu destaco os seguintes pontos (a tradução e interpretação dos fatos é de minha responsabilidade. Para ver na íntegra e no idioma original utilize o link já passado):

– Foram realizadas 5000 entrevistas com adultos, 1000 por país: Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha, França e Japão

– Desbloquear a criatividade é visto como uma importante chave do crescimento econômico e social

– Apesar disso, menos que a metade das pessoas se descrevem como criativas

– Apenas 1 entre 4 pessoas sentem que estão aproveitando todo o seu potencial criativo

– No ambiente de trabalho se aumentou a pressão para ser produtivo em volume superior ao esforço de ser criativo

– Desta forma, apenas 25% do tempo de trabalho é em algo criativo. Fora do ambiente de trabalho este percentual sobre para 33% em média.

– Globalmente os japoneses são vistos como o país mais criativo. Exceto pelos japoneses. Os americanos acreditam que os Estados Unidos é o país mais criativo

– 78% dos japoneses acreditam que ser criativo é algo para a comunidade de artistas

– As pessoas precisam de mais tempo, treinamento e ambiente adequado onde possam exercer sua criatividade

– 40% das pessoas acreditam que é essencial ter ferramentas específicas para criar

– Criatividade define uma pessoa que é capaz de fazer a diferença na sua vida e na vida dos outros. Criatividade é algo compartilhável

– Tempo e recursos financeiros são vistos como as principais barreiras para ser criativo

– A tecnologia ajuda as pessoas a transpor suas limitações criativas e as inspira

– Quase todos concordam que a criatividade está em todos os lugares em nossas vidas, mas pouco conseguimos enxergar nesta direção

– A habilidade de ser criativo é ilimitada e não tem fronteiras

– A queda do tempo de lazer é visto como um dos principais motivos para a queda da criatividade

– 7 a cada 10 pessoas preferem trabalhar sozinhos do que em grupos, quando realizam trabalhos criativos

Notamos então, nos dados da pesquisa acima, que o cultivo da criatividade é algo que preocupa diversos profissionais no mundo inteiro, bem como reconhecem que a pressão por resultados do dia a dia está afastando as pessoas desta condição de exercer a sua criatividade. Quase que uma confirmação para o ditado popular que diz que “queremos pessoas que executem ordens e que não pensem (e não reclamem!)”. No mínimo, uma situação estranha e de menor potencial de sobrevivência está se definindo para estas empresas.

Neste ponto, resgato rapidamente um conceito de Steven Johnson, que fala das possibilidades adjacentes. Este conceito nos diz que as coisas e ideias que são inventadas e implementadas na sociedade precisam “subir nos ombros” de outras ideias anteriores. Estas outras ideias que tornam esta nova ideia possível. Desta forma de ver a inovação e a criatividade, nota-se que recebemos inspirações de diversas fontes e depois de estar bem alimentado que conseguimos criar e executar nossa ideia. Quando a ideia está muito a frente do seu tempo, ela pode escapar dos limites do possível adjacente, e faltando peças para o quebra-cabeça, ele não se finaliza de uma maneira viável. Muitas idéias, como a câmera digital inventada em 1975 pela Kodak não tinham ainda os elementos suficientes para fazer desta ideia algo economicamente rentável. O próprio autor do livro, diz que se o You Tube tivesse sido inventado 10 anos antes da data de sua fundação ele teria naufragado, pelas condições de banda de navegação e pelos hábitos das pessoas. Então, a terceira contribuição é esta: Não se cria no vácuo. Alimente a sua máquina de pensar com os temas que queres criar. Depois suba nos ombros destas idéias e crie a sua.

Agora, para finalizar este post, coloco a entrevista com o meu amigo, o profissional Fabio Buss, que atualmente é o coordenador de estratégia e planejamento da Gad’Brivia. Desde já agradeço muito as respostas completas e bem elaboradas que recebi. Agregou muito ao post e depois de mais 6 meses que ele me respondeu, somente agora eu juntei todos os fatos que gostaria de apontar neste post. Fábio, valeu pela entrevista e pela tolerância em aguardar a publicação.

1.       Hoje em dia é muito valorizado os profissionais que tenham capacidade de entender situações diversas, se posicionar e apresentar soluções. Naturalmente que isso exige das pessoas a capacidade de pensar criativamente. Como você organiza (ou age) quando lhe é solicitado uma “solução” nova a um problema? Existe um método para pensar criativamente? O que mais funciona?

Existem diversos métodos, ferramentas e frameworks que podem ajudar no processo criativo e cada um se aplica com maior ou menor eficiência em diferentes situações. Mas acredito que independente de métodos o mais importante são algumas características pessoais que facilitam e promovem o pensamento criativo. Dentre as características mais recorrentes nas pessoas criativas que já conheci posso citar a curiosidade, a capacidade de síntese e uma inclinação a lidar de maneira confortável com, e até mesmo mostrar preferência por, mudanças e novidades.

A curiosidade por diferentes assuntos, mesmo que aparentemente desconectados com a área de atuação profissional, acompanhado em muitos casos por um certo anseio em ser o primeiro(a) a saber de novidades, alimentam o repertório técnico e cultural individual. Na minha opinião esta bagagem de conhecimentos gerais é um importante combustível para a criatividade. Além de um amplo repertório, vejo que as pessoas mais criativas tendem a ter uma maior sensibilidade para perceber e sintetizar padrões emergentes e de estabelecer conexões entre fatos aparentemente isolados. Essa capacidade parece acontecer de maneira instintiva, sem que a pessoa saiba necessariamente explicar racionalmente como chegou em determinada conclusão.

A terceira característica é fundamental. Sem ela, de nada adianta as duas anteriores. É a vontade de buscar novas soluções e ter tranqüilidade em optar por um caminho desconhecido que impulsiona a criatividade e permite que novas ideias ganhem vida. Acho importante ressaltar que o pensamento criativo tende a ser visto como importante apenas para a geração de novas ideias, mas, como a própria pergunta propõe, existe uma etapa anterior: entender a situação.

As três características unidas tendem a criar uma maior capacidade para perceber e definir com clareza o problema que deve ser resolvido e seu contexto. O criativo busca no seu repertório pessoal situações onde o mesmo problema, ou um problema muito semelhante, já aconteceu e identifica o mesmo padrão se repetindo.  Além disso, é raro que uma idéia seja completamente nova, o mas provável é que a melhor solução seja transpor ou combinar diferentes idéias já existentes. Conhecer alguns métodos, como o design thinking e técnicas de ideação (mindmapping, brainstoming, etc.), me ajuda a focar a capacidade criativa nas diversas etapas do processo criativo: entender e definir o problema, levantar alternativas para a solução, selecionar a alternativa mais promissora, prototipar e testar a solução, realizar ajustes e implementar a solução. Lembrando que este processo pode sofrer diversas iterações até alcançar a solução ideal.

 

2.       Existem diversos fatores e eventos que bloqueiam a capacidade criativa em determinados ambientes, profissionais ou não. O que mais lhe ‘poda’ a criatividade e qual o seu mecanismo de defesa para isso?

Um site dedicado a novidades do universo científico publicou recentemente uma nota acerca de estudos realizados em 2010 revelando uma grande incoerência entre a suposta valorização da criatividade e uma forte inclinação à rejeição de idéias novas  (“Why We Crave Creativity but Reject Creative Ideas” <http://www.sciencedaily.com/releases/2011/09/110903142411.htm>)

Os estudos realizados com mais de 200 pessoas levaram os pesquisadores da University of Pennsylvania aos seguintes achados:

– Idéias criativas são por definição novas, e a novidade desencadeia sentimentos de incerteza desconfortáveis para a maior parte das pessoas.

– As pessoas rejeitam idéias criativas em favor de idéias puramente práticas.

– Provas objetivas sustentando a validade da uma proposta criativa não motivam as pessoas a aceitarem a nova idéia.

–  O viés anti-criatividade ocorre de maneira tão sutil que a maioria das pessoas não notam que o possuem, o que interfere com a capacidade destas pessoas em reconhecer o valor de uma idéia criativa.

Assim, percebo que um dos maiores inibidores da criatividade é um ambiente que não “entende” a criatividade. Um ambiente onde existe um medo decorrente da falta de conhecimento do processo criativo. Medo tanto por parte do criativo quanto dos responsáveis por aprovar uma nova idéia. Existe o medo de ser criticado por não ter embasamento suficiente ao propor ou aceitar uma nova idéia, de ser visto como imaturo ao defender com convicção uma idéia que carrega riscos vistos como desnecessários. Este sentimento costuma fazer com que as pessoas critiquem e desconsiderem idéias criativas em estágios muito preliminares do processo.

Uma maneira que procuro usar para tentar criar um ambiente onde idéias criativas possam se desenvolver é apresentar ao grupo um método baseado na repetição intercalada de fases pré estabelecidas prevendo ora o pensamento divergente, ora o convergente. A seleção das melhores idéias deve acontecer apenas na fase convergente. Isto para que nas fases divergentes existam condições para que se busque a maior quantidade de alternativas possíveis, evitando-se que as idéias sofram críticas precipitadas e incentivando a participação no processo. Uma boa dica é procurar seguir as regras de brainstorming < http://pt.wikipedia.org/wiki/Brainstorming>.

 

3.       Se você fosse colocado na missão de auxiliar uma equipe comercial a pensar uma ‘nova maneira de pensar as vendas’ para obterem resultados 50% melhores do que os atuais, como você procederia? Como colocaria a sua competência criativa em ação? (se facilitar, imagine que seria um produto como calçado feminino e todo o seu contexto; um dos pólos mais atuantes em nossa região)

Atribui-se ao Albert Eintein a frase que diz: “Não se pode esperar resultados diferentes fazendo as coisas da mesma forma. ” Assim, o primeiro passo me parece ser entender o histórico de vendas e quais foram as estratégias já utilizadas anteriormente pela equipe.  Além disso, eu teria interesse em conhecer a cultura da empresa e da equipe de vendas. Isto poderia ser feito por meio de entrevistas e acompanhando a equipe no seu trabalho diário.

Depois de entender o contexto, eu tentaria isolar e sintetizar uma definição objetiva do problema a ser resolvido criativamente. O que impede a equipe de atingir os objetivos propostos? A causa do problema é interna ou externa? O problema é de motivação da equipe? É da estratégia de marketing? Os concorrentes estão atuando com estratégias novas?

Sem entender com clareza o problema, não existe possibilidade de prosseguir em busca de uma solução criativa verdadeiramente eficiente. Porém, de nada adianta propôr uma solução que seja de execução inviável ou que tornaria a equipe de vendas desconfortável. É importante entender as limitações e restrições para a solução. Um caminho interessante para acelerar este processo poderia ser o de envolver a equipe de vendas numa etapa de co-criação, através de workshops de brainstorming e escolha das melhores ideias para o grupo.

O próximo passo, antes de implementar a solução mais promissora, poderia ser a prototipação de uma ou duas ideias. Por exemplo, um programa piloto em apenas uma praça. Este teste serviria para revelar os pontos fortes e fracos da nova ideia. Com este conhecimento, torna-se possivel realizar ajustes antes de executar a solução final.

****************************** FIM DA ENTREVISTA ********************************

 

Por fim, indico uma oportunidade de ver um dos grandes pensadores do tema criatividade, o italiano Domenico de Masi, que escreveu o Best Seller internacional “Ócio Criativo”. Ele estará junto com outros amigos meu, no Rio Grande do Sul em duas oportunidades, dias 14 e 15 de Maio. Para maiores informações acessem o link do Road Show Internacional.

“O futuro pertence a quem souber libertar-se da idéia tradicional do trabalho como obrigação e for capaz de apostar numa mistura de atividades, onde o trabalho se confundirá com o tempo livre e o estudo” Domenico de Masi.

Nas bordas do conhecimento, na velocidade da mudança, seguindo o fluxo da riqueza. É para lá que eu vou. E você?

 

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Gustavo Campos

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Gustavo Campos, administrador por formação, empreendedor por natureza. Muito estudioso, leitor voraz, odeia falar ao telefone. Gosta de tecnologia, apesar de se incomodar em pagar mais caro por ser um dos primeiros a comprar algo. Geek por estilo de vida, sempre está conectado, não sabendo o que seria de sua vida sem notebook, smartphones, tablets, Moleskine e uma boa conexão Wi-Fi com a Internet. Ambicioso, não alcançou ainda nem o início do que quer desta vida. Professor apaixonado pela vida e por sua família, dono do Max e da Pink, o casal de Yorkshires mais famosos da cidade.

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Principais fontes consultadas para este artigo:

– Minhas experiências pessoais e profissionais

– Um olhar atento de consultor e analista de mercado

– Entrevista com o profissional criativo Fabio Buss

– Livro “De onde vêm as boas ideias”, de Steven Johnson

– Site do Fronteiras do Pensamento

– Site da Adobe.com

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